OPINANDO: Uma fronteira, dois preços – Energia na Península Ibérica
Portugal e Espanha partilham muito mais do que uma fronteira. Desde 2007, os dois países integram o Mercado Ibérico de Eletricidade (MIBEL), um espaço conjunto onde os produtores de energia concorrem e o preço da eletricidade é determinado pela unidade de geração mais cara necessária para satisfazer a procura. Na teoria, este mecanismo deveria produzir preços semelhantes dos dois lados da fronteira. E, na maioria das horas do ano, é isso que acontece: em 2024, a diferença entre os preços grossistas português e espanhol foi inferior a 1 euro por megawatt-hora (MWh) em 95% das horas. Mas a teoria nem sempre coincide com a fatura que chega a casa.
Os dados mais recentes da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE) são claros: no 1.º semestre de 2025, os preços médios de eletricidade para os consumidores domésticos em Portugal foram inferiores aos de Espanha, à média da União Europeia e à média da Área do Euro. Esta vantagem não é nova: o boletim homólogo de 2024 registou exatamente o mesmo padrão. O que a explica é, em grande parte, a composição do mix de geração de cada país ̶ e, em particular, o papel decisivo da água.
Portugal dispõe de um parque hídrico que responde diretamente ao ritmo das chuvas e ao caudal dos rios. Quando os reservatórios estão cheios, a eletricidade nacional fica mais barata do que a espanhola; quando a seca se instala, a lógica pode inverter-se. Em fevereiro de 2026, esse efeito foi bem visível: Portugal registou um preço médio grossista de apenas 10,65 €/MWh ̶ o valor mais baixo de toda a história do mercado ibérico ̶ , enquanto Espanha ficou nos 16,41 €/MWh. Em ambos os casos, mais de 75 a 85% da eletricidade produzida foi de origem renovável, reduzindo drasticamente a dependência das centrais a gás, que são as mais caras e as que mais condicionam o preço final.
Esta aposta renovável tem gerado um fenómeno cada vez mais frequente: os preços negativos. No primeiro trimestre de 2026, Espanha registou 397 horas em que a eletricidade teve preço negativo ̶ isto é, momentos em que havia tanta energia disponível que os produtores chegaram a pagar para que a rede a absorvesse. Portugal acumulou 222 horas na mesma situação, com o preço a atingir um mínimo de -58,60 €/MWh a 21 de fevereiro. Para comparação, no mesmo período de 2025 tinham sido apenas 48 horas em toda a Península. A razão é estrutural: Espanha duplicou a sua capacidade solar para 40 gigawatts (GW) entre 2019 e 2026, e Portugal produziu mais de 80% da sua eletricidade a partir de fontes limpas em janeiro de 2026, liderando o ranking europeu.
Preços baixos no mercado grossista, porém, não chegam automaticamente às famílias – e é aqui que as diferenças regulatórias se tornam mais visíveis. Em Espanha, quem adere à tarifa regulada do Estado (Precio Voluntario para el Pequeño Consumidor, PVPC) vê a sua fatura atualizada a cada 15 minutos com base nos preços de mercado. Em 2025, a fatura mensal média neste regime atingiu 69,34 euros, o quarto ano mais caro desde a criação da tarifa. Para proteger as famílias mais vulneráveis, o governo espanhol mantém descontos até 57,5% na fatura até ao final de 2026. Portugal optou por uma abordagem diferente: comprometeu-se a intervir se os preços retalhistas subirem mais de 70%, com um teto máximo de 180 €/MWh.
O contexto geopolítico também importa. Em 2022, quando a guerra na Ucrânia fez disparar os preços do gás em toda a Europa, Portugal e Espanha agiram em conjunto: a Comissão Europeia aprovou uma medida de apoio de 8,4 mil milhões de euros para conter os preços no mercado ibérico. O episódio expôs uma vulnerabilidade que persiste: a Península Ibérica está relativamente isolada da rede elétrica europeia. Essa fragilidade foi dramaticamente confirmada pelo apagão de 28 de abril de 2025, em que Espanha perdeu cerca de 60% da sua capacidade de geração numa falha em cascata, levando a Ministra Portuguesa do Ambiente e Energia a exigir publicamente o fim das distorções de preço no mercado energético europeu.
A trajetória é de convergência. Mais renováveis, mais armazenamento e mais ligações à Europa reduzirão as diferenças que hoje distinguem as faturas de um lisboeta das de um madrileno. Graças à aposta partilhada nas energias limpas, os preços da eletricidade nos países com maior produção renovável foram, em média, 24,2% mais baixos entre 2023 e 2025 do que seriam com dependência fóssil. Portugal e Espanha escrevem ainda faturas ligeiramente diferentes – mas partilham cada vez mais o mesmo livro de energia.
Hugo Andrade
