OPINANDO:O poder não transforma pessoas. Revela-as.
Há uma ideia frequentemente repetida — e nem sempre bem compreendida — de que o poder muda as pessoas. Na verdade, o poder raramente transforma alguém; o que faz, quase sempre, é revelar com maior nitidez aquilo que cada um já é. Amplifica virtudes, mas também expõe fragilidades, inseguranças e vaidades que antes estavam mais disfarçadas.
Quando alguém assume funções de liderança — seja no desporto, nas instituições ou na vida pública — passa a ter uma escolha silenciosa, mas decisiva: usar a responsabilidade para construir projetos com impacto coletivo ou utilizar a posição para alimentar o próprio ego. É aqui que se traça a verdadeira linha entre liderança e protagonismo vazio.
Construir projetos exige visão, paciência e, sobretudo, sentido de missão. Implica ouvir mais do que falar, agregar em vez de dividir e colocar o interesse comum acima da afirmação pessoal. Quem constrói deixa obra, cria oportunidades e fortalece comunidades. O foco está no legado, não no aplauso imediato.
Mas há uma dimensão muitas vezes ignorada no debate sobre liderança: a forma como o poder é alcançado. Quando o acesso a posições de responsabilidade nasce de processos marcados pela deslealdade, pela quebra de confiança ou por jogos de bastidores, esse facto tende a refletir-se inevitavelmente no modo de exercer funções. O poder conquistado sem ética raramente é exercido com ética.
Isto não significa que os contextos institucionais sejam imunes a disputas — elas fazem parte da vida democrática e associativa. O problema surge quando a ambição pessoal se sobrepõe aos princípios, quando a pressa de chegar fala mais alto do que a lealdade no caminho. Nesses momentos, o poder deixa de ser instrumento de serviço e passa a ser apenas um troféu.
No contexto desportivo, esta distinção torna-se particularmente evidente. O desporto, pela sua natureza formativa e social, exige líderes capazes de colocar os valores — ética, integridade, fair-play e respeito — acima de qualquer agenda pessoal. Quando isso não acontece, perde-se muito mais do que jogos: perde-se credibilidade, confiança e, sobretudo, exemplo para os mais jovens.
Importa, por isso, cultivar uma cultura de responsabilidade consciente. O poder deve ser entendido como serviço, não como estatuto. Como oportunidade de elevar pessoas e territórios, não como palco de afirmação individual. As instituições fortes constroem-se com líderes discretos, consistentes e orientados para o coletivo.
No fim, o tempo acaba por fazer a triagem que o momento nem sempre permite. Ficam aqueles que construíram. Esbatem-se os que apenas procuraram protagonismo.
Porque, na verdade, o poder não transforma pessoas. Revela-as.
