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Diretor: Paulo Menano

OPINANDO: Os Bombeiros não podem continuar a ser o recurso fácil


O debate em torno da prevenção florestal é necessário, legítimo e urgente. Portugal precisa, com seriedade, de discutir floresta, ordenamento, prevenção e segurança.

Mas precisamente por isso, há matérias onde importa elevar o debate e recusar leituras simplistas sobre realidades profundamente exigentes.

Socorro, combate e prevenção fazem parte da essência dos Bombeiros. Sempre fizeram. E continuarão a fazer.

Contudo, é fundamental clarificar responsabilidades.

Os Bombeiros não podem ser vistos como solução automática para tudo aquilo que o sistema, a política pública ou outras estruturas não conseguiram resolver.

Os Bombeiros não podem transformar-se nos faz-tudo de um país que, demasiadas vezes, tarda em enfrentar estruturalmente problemas que exigem planeamento, reforma e responsabilidade própria.

Uma coisa é integrar os Bombeiros numa estratégia séria de prevenção. Outra, profundamente diferente, é transferir para os Bombeiros funções que pertencem, por natureza, a outras entidades, apenas porque isso parece mais imediato ou politicamente mais simples.

Quem conhece verdadeiramente a realidade dos Bombeiros sabe que a exigência que já hoje lhes é colocada é elevadíssima.

Todos os Bombeiros têm deveres, compromisso, exigências e horas de voluntariado a cumprir. Todos conciliam missão com vida pessoal, familiar e profissional. Todos operam num contexto de elevada exigência humana, física e institucional.

A isto somam-se, em muitos casos, equipas de intervenção permanente, emergência pré-hospitalar, postos de emergência médica, transporte de doentes não urgentes e resposta operacional permanente.

Ou seja, o verdadeiro debate talvez não devesse começar por perguntar: o que mais podem fazer os Bombeiros?

Talvez devesse começar por algo mais estrutural: como reforçamos carreiras? Como valorizamos missão? Como melhoramos condições? Como retemos pessoas? Como garantimos reconhecimento efetivo a quem serve?

Porque uma das maiores fragilidades do setor não está na ausência de missão. Está, muitas vezes, na dificuldade crescente em garantir valorização, estabilidade e reconhecimento suficientes para sustentar essa missão.

A limpeza estrutural de terrenos, o ordenamento, a gestão fundiária, a responsabilização sobre propriedade e a política florestal têm enquadramento próprio, entidades competentes e responsabilidades definidas.

Confundir isso com missão nuclear dos Bombeiros não fortalece o sistema. Arrisca desvirtuá-lo.

Portugal precisa de Bombeiros valorizados, respeitados e estruturalmente fortalecidos. Não de Bombeiros transformados, por conveniência, em resposta universal para tudo aquilo que outros não querem fazer, não conseguem fazer ou tardaram em estruturar.

Valorizar os Bombeiros não é atribuir-lhes tudo.

É reconhecer, com seriedade, aquilo que lhes é absolutamente essencial fazer e proteger a clareza dessa missão.

A floresta não se protege apenas quando o fogo começa. Protege-se antes: na política, no ordenamento, na gestão, na responsabilização e na prevenção estrutural.

Os Bombeiros são parte decisiva dessa cadeia. Mas não podem ser confundidos com substitutos permanentes de falhas sistémicas.

O país precisa de discutir como reforçar estruturalmente os Bombeiros, não como lhes acrescentar, por facilidade, responsabilidades que pertencem a outros.

Porque defender os Bombeiros é também isto: respeitar a sua missão, valorizar as suas carreiras, proteger a sua dignidade institucional e garantir que o debate público sobre o setor se faz com conhecimento, responsabilidade e visão estratégica.

A prevenção exige compromisso coletivo. A floresta exige reforma séria. E os Bombeiros exigem, acima de tudo, respeito.

Defender os Bombeiros é garantir que o país deixa de lhes pedir para compensar aquilo que nunca teve coragem de estruturar.

Cláudio Serra