OPINANDO: Escolas de Negócios Portuguesas no Topo Mundial – Um Ativo Estratégico para a Retenção de Talento
Portugal enfrenta uma das mais persistentes contradições da sua economia contemporânea: forma quadros cada vez mais qualificados e reconhecidos internacionalmente, mas continua a perder uma parte significativa desse capital humano para o estrangeiro. Os recentes resultados dos rankings do Financial Times (FT) dedicados à formação executiva — que colocam seis escolas de negócios portuguesas entre as melhores do mundo — oferecem uma perspetiva nova sobre este paradoxo e abrem uma oportunidade concreta para transformar a excelência académica num verdadeiro pilar de retenção de talento.
Os números são inequívocos. A Nova School of Business and Economics (Nova SBE) alcançou o 9.º lugar mundial na categoria de programas customizados, tornando-se a primeira escola de língua portuguesa — e ibérica — a integrar o top 10 desta lista, posicionando-se ao lado da London Business School, do INSEAD e do IMD. A CATÓLICA-LISBON, pioneira neste ranking há 19 anos, subiu 11 posições nos programas abertos e atingiu o 26.º lugar mundial e o 19.º na Europa. O ISCTE Business School registou a maior subida a nível mundial na categoria de programas abertos, posicionando se no 31.º lugar nos programas customizados. A Porto Business School (PBS) acumulou uma progressão de 40 lugares desde 2020, chegando ao 35.º lugar mundial nos programas abertos. O ISEG Executive consolidou-se no top 50 mundial em programas customizados (48.º lugar) e no 70.º nos programas abertos, enquanto a Católica Porto Business School se estreou neste ranking internacional. Em conjunto, estas seis instituições formam um ecossistema de formação executiva que, medido pelos critérios do FT, rivaliza com os melhores centros académicos do mundo.
Este reconhecimento chega num momento em que Portugal regista uma pressão crescente sobre o seu mercado de trabalho. Segundo o Global Talent Shortage Survey 2026 do ManpowerGroup, 82% dos empregadores portugueses reportam dificuldades em preencher vagas — um dos valores mais elevados a nível mundial, colocando o país entre os cinco mercados com maior escassez de talento. Esta realidade é confirmada pelos principais índices internacionais: o IMD World Talent Ranking 2025 posiciona Portugal no 23.º lugar entre 69 economias, avaliando a capacidade de cada país em desenvolver, atrair e reter talento, enquanto o INSEAD Global Talent Competitiveness Index 2025 coloca o país no 24.º lugar entre 135 nações, destacando a abertura do ecossistema de talento e a qualidade de vida como pontos fortes. Os dados mostram, assim, que Portugal tem ativos competitivos reais — mas que ainda não se traduzem plenamente na retenção efetiva dos seus profissionais mais qualificados.
Perceber porquê implica ir além das estatísticas. A saída de quadros para países como o Reino Unido, os Países Baixos ou a Alemanha não se explica apenas pelos salários — embora estes continuem abaixo da média europeia. Explica-se igualmente pela perceção de que as oportunidades de crescimento profissional e de formação de excelência estão, em grande medida, fora de Portugal. É precisamente este argumento que a ascensão das escolas de negócios nacionais começa a desmontar. Um estudo realizado pela Cetelem BNP Paribas Personal Finance em parceria com a NielsenIQ, divulgado pela Nova SBE Executive Education, revelou que o desenvolvimento de competências (76%) e os planos de progressão de carreira (73%) estão entre as ferramentas de retenção mais valorizadas pelos profissionais portugueses — superando, em muitos casos, os benefícios monetários. Mais significativo ainda: 39% dos inquiridos associam espontaneamente o desenvolvimento humano a conceitos como educação, ensino e formação, o que coloca a qualidade da oferta formativa no centro da equação da retenção.
Neste contexto, a excelência das escolas portuguesas no ranking do FT deixa de ser apenas uma conquista académica para se tornar um argumento económico de primeira ordem. Quando uma empresa oferece a um executivo a possibilidade de frequentar um programa customizado da Nova SBE — que ocupa o 2.º lugar mundial no critério Future Use, medindo a probabilidade de os participantes regressarem para novas formações — ou da PBS, com a sua distribuição equilibrada de 50/50 entre participantes por género, está a construir um vínculo que vai muito além do contrato de trabalho. Está a criar pertença, identidade profissional e razões concretas para ficar. A formação de qualidade mundial, disponível em Portugal, elimina o principal pretexto para emigrar.
O governo, por seu lado, tem dado passos na mesma direção. O regime de IRS Jovem, em vigor desde 2025, prevê isenção total de imposto sobre o rendimento no primeiro ano de trabalho, com reduções progressivas até ao décimo ano, dirigindo-se explicitamente ao combate ao brain drain entre os recém-formados. A medida fiscal e a excelência académica são, assim, duas faces de uma mesma estratégia — incompleta se aplicada de forma isolada, mas poderosa quando combinada com uma cultura empresarial que valoriza o desenvolvimento dos seus talentos.
Portugal tem hoje, pela primeira vez, um argumento de peso para responder à questão que assombra há décadas a sua economia: porque ficaria um profissional altamente qualificado quando o mundo inteiro o recruta? A resposta está a tomar forma nas salas de aula de seis escolas de negócios que o FT reconheceu entre as melhores do planeta. O talento que Portugal forma não pode continuar a ser o seu maior produto de exportação. As escolas estão a fazer a sua parte. Cabe ao tecido empresarial e ao Estado — com políticas consistentes, salários competitivos e uma cultura de valorização do mérito — completar a equação.
Hugo Andrade
