OPINANDO: Os números que explicam porque trabalhamos tanto e temos tão pouco
Uma clarificação necessária sobre o que é produtividade, porque a nossa é baixa e é importante saber de quem é a culpa.
O português é um trabalhador esforçado. Diga-se isso com toda a seriedade, porque os números confirmam. Em 2024, éramos o quarto país da União Europeia com maior percentagem de trabalhadores a fazer 49 ou mais horas por semana. Somos, de facto, o único país da Europa Ocidental onde se trabalha, em média, mais de 37 horas semanais. Impressionante.
Pois bem. É exatamente aqui que começa o problema.
Porque toda esta dedicação, todo este suor e horas extras, toda esta cultura do “fico mais um bocadinho” não se traduz em riqueza. Não se traduz em salários. Não se traduz em desenvolvimento. Traduz-se, essencialmente, em cansaço.
Antes de continuar, convém explicar o que é produtividade, porque há muita confusão instalada e essa confusão é conveniente para alguns. Produtividade não é trabalhar muito. É gerar valor por cada hora trabalhada. É a riqueza que uma economia consegue criar com o tempo e os recursos que tem disponíveis. A produtividade mede-se em euros por hora, não em horas por semana.
A confusão entre as duas coisas é velha e conveniente. Conveniente para quem prefere elogiar o esforço em vez de explicar os resultados. Conveniente para quem confunde presença com eficácia, e reunião com trabalho.
Em 2023, Portugal gerava 28,8 euros por hora trabalhada. A Irlanda gerava 115 euros. A Dinamarca, 84,5 euros. A Alemanha e a Holanda, perto dos 70 euros. Nós, com as nossas muitas horas e o nosso muito esforço, ficávamos pelos 28,8 euros. Um número que, convenientemente, ninguém coloca nos discursos sobre o dinamismo da economia nacional.
Para contextualizar: a nossa produtividade por hora equivale a 71% da média europeia. Um valor que, note-se, é praticamente o mesmo que tínhamos em 2000. Ou seja, em mais de duas décadas, ficámos no mesmo lugar enquanto a Europa avançava. E avançou tanto que, entretanto, oito países do leste europeu que entraram na União muito depois de nós já nos ultrapassaram.
Repita-se: a Roménia ultrapassou-nos. A Estónia ultrapassou-nos. Países que em 1995 tinham produtividades de 23% e 29% da média europeia, respetivamente. Hoje estão à nossa frente. Se isto não é matéria para reflexão, não sei o que é.
A baixa produtividade portuguesa não é um fenómeno da natureza. Não choveu do céu nem veio com o fado. É o resultado acumulado de décadas de escolhas muito concretas, feitas por pessoas muito concretas, com nomes e cargos. Há réus identificáveis nesta história.
O primeiro chama-se modelo económico. Décadas de apostas em setores de baixo valor acrescentado, desde o turismo de massa ao imobiliário barato, criaram uma economia onde a concorrência se faz pelo preço e não pela qualidade ou inovação. Uma economia que não precisa de ser mais produtiva para sobreviver. Sobrevive a ser barata.
O segundo réu são as empresas. Quase metade dos empregadores em Portugal tem, no máximo, o ensino básico. Este número não é um insulto: é um dado do Eurostat que ajuda a explicar por que razão o investimento em tecnologia, em processos e em formação das equipas é tão baixo. Quando há sempre mão de obra disponível e barata, o incentivo para modernizar é fraco. O resultado é um tecido empresarial descapitalizado, tecnologicamente atrasado e gerido, muitas vezes, por intuição.
O terceiro réu é o Estado. O subinvestimento crónico em educação de qualidade, em digitalização da administração pública, em infraestruturas que aumentem a competitividade do país, e em políticas industriais que incentivem setores de alto valor acrescentado, tem um preço. Esse preço chama-se produtividade baixa. E paga-se todos os meses no extrato bancário de quem trabalha.
Há uma narrativa reconfortante que circula em Portugal há décadas: somos pobres porque somos pequenos. Somos pouco produtivos porque somos periféricos. É uma narrativa que tem a vantagem de não responsabilizar ninguém e a desvantagem de ser, na melhor das hipóteses, incompleta.
A Irlanda é pequena. A Dinamarca é pequena. A Áustria é pequena. São todos países com economias mais produtivas, mais inovadoras e com salários muito mais altos do que os nossos. A diferença não está na geografia. Está nas escolhas.
Enquanto continuarmos a confundir esforço com eficácia, enquanto o Estado continuar a gerir a economia como se 2025 fosse 1985, enquanto as empresas continuarem a competir pelo preço em vez de competir pela qualidade, o português continuará a trabalhar muito e a ganhar pouco.
E no final deste ano, o Eurostat publicará um novo relatório a confirmar que somos dos que mais horas trabalham e dos que menos riqueza geram por cada uma delas. Parabéns a todos!
Rui Abreu
