OPINANDO: O turismo que o mundo nos traz — e os riscos que não podemos ignorar
Em 2026, Portugal tornou-se destino de uma procura que não se explica apenas pela beleza das suas paisagens. Explica-se também pelo medo — de viajar para o Médio Oriente, da imprevisibilidade norte-americana, da busca de estabilidade num mundo em sobressalto. Compreender o turismo português hoje exige ler, em simultâneo, os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) e o mapa dos conflitos internacionais.
Os números falam por si. Segundo a Conta Satélite do Turismo do INE, a atividade turística gerou em 2024 um impacto total de 34 mil milhões de euros no Produto Interno Bruto (PIB), o equivalente a 11,9% da economia nacional, com um Valor Acrescentado Bruto (VAB) de 20,1 mil milhões — o peso mais elevado da União Europeia (UE). O Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC) projeta que, em 2025, o setor contribua com 62,7 mil milhões de euros, 21,5% do PIB e cerca de 38% acima do pico pré-pandemia, apoiando 1,2 milhões de empregos — um em cada quatro postos de trabalho no país. Importa, porém, não ignorar um sinal de moderação: em 2024, o turismo explicou apenas 15% do crescimento real do PIB, bem abaixo dos 48% registados em 2023.
O contexto geopolítico amplifica os fluxos, mas não os garante. O conflito no Médio Oriente está a desviar procura em direção ao Sul da Europa, onde Portugal emerge como destino estável e de baixo risco. A European Travel Commission (ETC) confirma que as chegadas à Europa cresceram 5,6% no início de 2026, e que 82% dos europeus planeiam viajar na primavera-verão, elegendo a segurança como principal critério de escolha. Portugal figura nas preferências de 6% dos viajantes europeus, e o IPDT – Tourism Intelligence estima que o país possa captar até 500 milhões de euros em receitas adicionais do turismo alemão desviado do Médio Oriente — um cenário hipotético, sublinha a própria instituição, não uma previsão garantida.
As tensões comerciais com os Estados Unidos da América (EUA) adicionam complexidade. As tarifas de 15% sobre importações europeias afetam setores exportadores do Norte de Portugal, tendo levado o Governo a anunciar um pacote de apoio de cerca de 11 mil milhões de dólares, segundo a Reuters. Em paralelo, a quebra nas viagens de europeus para os EUA, documentada pelo Financial Times e pela BBC,
reforça a valorização de destinos europeus estáveis.
A Comissão Europeia (CE) alerta para a vulnerabilidade de um setor tão dependente do transporte aéreo, e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) recomenda o reforço de indicadores de sustentabilidade para proteger as comunidades locais do impacto do crescimento turístico. O Instituto de Planeamento e Desenvolvimento do Turismo (IPDT) apela à desconcentração urgente dos fluxos que sobrecarregam Lisboa e o Algarve, em favor do interior e da região Centro.
Em 2026, o mundo vem a Portugal porque o país fez muitas coisas bem, mas também porque outros destinos se tornaram mais perigosos ou imprevisíveis. Transformar uma conjuntura alimentada, em parte, por crises alheias num desenvolvimento equilibrado e duradouro será um dos testes mais exigentes da política económica portuguesa nos próximos anos.
Hugo Andrade
