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Diretor: Paulo Menano

GUARDA: Património Associativo Não É Propriedade Pessoal – Uma Questão de Respeito pelos Clubes


A confirmação da venda do auditório da Associação de Futebol da Guarda, no Bairro das Lameirinhas, na Guarda, representa um momento que merece uma reflexão séria por parte de todos aqueles que vivem e acompanham o futebol distrital.

A questão não se resume à venda de um imóvel. O verdadeiro debate está na forma como uma decisão desta dimensão foi conduzida e no papel que os clubes, enquanto sócios ordinários da Associação, tiveram — ou não tiveram — nesse processo.

É verdade que os estatutos aprovados em Assembleia Geral, pelos clubes no dia 27 de junho de 2025, atribuíram ao Presidente poderes mais alargados, permitindo que determinadas decisões possam ser tomadas com a concordância da Direção.

No entanto, na minha opinião, essa concentração de poderes nunca deve significar o afastamento dos clubes das decisões que envolvem património construído ao longo de décadas.

Porque uma coisa é o poder estatutário. Outra, bem diferente, é a responsabilidade moral e institucional que deve acompanhar o exercício desse poder.

Acresce ainda que os próprios estatutos estabelecem salvaguardas para decisões desta natureza. O artigo 50.º, alínea p), prevê que a alienação de património seja acompanhada por parecer do Conselho Fiscal, sendo igualmente fundamental que exista uma avaliação independente que permita aferir, com transparência e rigor, o valor real do bem em causa.

Tratando-se de património pertencente à Associação, estes mecanismos não devem ser vistos como meras formalidades, mas como instrumentos essenciais de fiscalização e proteção dos interesses dos associados.

O auditório agora vendido não era património de um presidente nem de uma direção. Era património da Associação de Futebol da Guarda, uma instituição que pertence aos seus associados e cuja história foi construída pelo esforço de sucessivas gerações de dirigentes, clubes, atletas e agentes desportivos.

Por isso, mesmo que a decisão encontre enquadramento nos estatutos atualmente em vigor, permanecem questões que não podem ser ignoradas: existiu parecer do Conselho Fiscal nos termos previstos estatutariamente? Foi realizada uma avaliação independente do imóvel?

E, sobretudo, foi dado aos clubes o espaço necessário para participarem numa decisão desta importância? Foram devidamente informados, esclarecidos e envolvidos num processo que altera significativamente o património da sua associação?

A democracia associativa não deve ser reduzida ao estrito cumprimento das normas. Deve assentar também na transparência, no diálogo e no respeito por aqueles que constituem a base da instituição.

Causa, por isso, estranheza que muitos tenham tomado conhecimento da concretização da venda através da divulgação pública do imóvel e não através de um processo amplamente participado pelos sócios ordinários. Quando estão em causa bens que pertencem à memória coletiva de uma instituição, o dever de informação deve ser ainda maior.

A Associação de Futebol da Guarda não existe sem os seus clubes. São eles a razão da sua existência. São eles que lhe conferem legitimidade. São eles que sustentam o futebol distrital e que, ao longo dos anos, contribuíram para a construção do património material e imaterial da instituição.

Mais do que discutir a venda em si, importa discutir o modelo de governação que se pretende para o futuro. Um modelo assente na concentração de decisões ou um modelo baseado na participação, na proximidade e no envolvimento dos associados.

As instituições tornam-se mais fortes quando ouvem os seus sócios. Tornam-se mais credíveis quando explicam as suas decisões. E tornam-se mais respeitadas quando percebem que o património que gerem não lhes pertence, mas sim à comunidade que representam.

O auditório foi vendido. Esse é um facto consumado. Mas a reflexão sobre a forma como as grandes decisões são tomadas está longe de terminar.

Porque o património associativo não é propriedade pessoal de quem ocupa cargos dirigentes. É um legado coletivo.

E os clubes, enquanto sócios ordinários da Associação de Futebol da Guarda, merecem sempre ser ouvidos, respeitados e envolvidos nas decisões que marcam o futuro da instituição.

Paulo Menano