
Opinando: A Grande Capitulação Cerebral – Como os ‘Encarrapatos’ Entregaram a Liberdade aos Algoritmos
- O Paradoxo da Liberdade: Da Savana às Prisões Digitais
Há seis milhões de anos, um grupo de primatas desceu das árvores e iniciou uma revolução. Hoje, os seus descendentes — agora Homo smartphoneensis — parecem empenhados em reverter a evolução. Trocaram a curiosidade pelo scroll infinito, o pensamento crítico por likes, e a autonomia por algoritmos que decidem até quantas vezes devemos mastigar e defecar.
A ironia é cruel: a mesma espécie que domesticou o fogo agora deixa-se domesticar por notifications.
- Distopias que Saíram das Páginas
Zamiatine, Orwell e Huxley avisaram-nos: o futuro seria um lugar onde o Estado não controla apenas ações, mas invasões mentais. Erraram apenas na cronologia.
Vigilância 2.0: O panóptico de Bentham materializou-se nos cookies que nos observam e nas câmaras que reconhecem emoções.
Identidade Líquida: Já não somos a Hermengarda ou Benevides, mas User#XK-2020, perfis num banco de dados estatal.
Felicidade Obrigatória: Como na Laranja Mecânica, a violência é anestesiada com streaming e farmacologia emocional.
O pior? Nem precisamos de censores. Autocensuramo-nos por conveniência.
- A Linha de Montagem das Consciências
John B. Watson, pai do behaviorismo, orgulhar-se-ia: as suas teorias sobre condicionamento infantil são agora políticas públicas. Redes sociais, big data e neuromarketing fazem o que ele só sonhara — moldam adultos como peças de Lego.
Louis Cheskin provou que as cores influenciam as compras; hoje, algoritmos influenciam votos, desejos e até a perceção da realidade. O resultado? Uma sociedade de “encarrapatos”, ou seja, nus desde a fé dos neurónios até ao algoritmo – e nem o Ctrl+Alt+Del nos salva desta exposição digital: seres que confundem liberdade com escolher entre Netflix, HBO e outra forma de descerebrar.
- A Morte da Política (e do Pensamento)
O jogo ideológico esvaziou-se. Não há “esquerda” ou “direita”, apenas gerências técnicas de um sistema que substituiu debates por soundbites.
Como escreveu Aristófanes: “Ó povo, és tão fácil de levar!” Basta um inimigo comum (um vírus, uma crise) para que aceitemos passivamente a erosão de direitos em nome de uma segurança ilusória.
- Resistir: Um Manual de Sobrevivência
A saída? Subverter a lógica do rebanho.
Leia. Bradbury avisou: quem não lê está a queimar livros com a própria ignorância.
Desconfie. Se uma ideia é vendida como “consenso”, examine-a. A história mostra que o normal nem sempre é justo.
Recuse a felicidade embalada. O sonho ainda é o último reduto da liberdade — e, por isso, o primeiro alvo do poder.
- O Pesadelo já chegou (e Trouxe Wi-Fi)
Não precisamos de um Grande Irmão. Basta-nos a comodidade, o medo do caos e a preguiça de pensar. O futuro não será uma ditadura clássica, mas uma democracia de fachada, onde votamos em quem nos entrega, de mão beijada, as correntes mais confortáveis.
A pergunta que resta não é “O que nos espera?”, mas “Quantos de nós ainda se importarão quando chegar?”
Bradbury tinha razão: um povo que não lê está condenado a repetir — ou pior, a nem perceber que está a repetir.
La Boétie lembra-nos: a servidão é sempre voluntária. Até quando a escolheremos?
Cada pensador aqui citado foi (ou será) queimado metaforicamente pelo sistema que descrevem. A pergunta que fica: quantos destes pensadores e os seus livros ainda estarão disponíveis – e quantos de nós ainda teremos capacidade de os compreender – quando o algoritmo decidir que “não são relevantes para a sua experiência de utilizador”?
- Bibliografia para Resistência Intelectual (caso alguém ainda consiga ler livros completos no século da atenção fragmentada) porque o futuro teima em não aprender com os livros.
– Aristófanes. Os Cavaleiros. Lisboa: Edições 70, 2004.
(Prova que a manipulação política nasceu antes da eletricidade)
– Bradbury, Ray. Fahrenheit 451. Lisboa: Saída de Emergência.
(O único livro onde queimar páginas ainda é mais perigoso que não as ler)
– Bentham, Jeremy. El Panóptico. Madrid: Endymion, 1989.
(A arquitetura como arma de controlo social – edição esgotada nas livrarias, mas viva nos algoritmos)
– Burgess, Anthony. A Laranja Mecânica. Alfaguara Portugal, 2012.
(Manual não-oficial sobre liberdade, violência e a tirania do “bem-estar” imposto)
– Cheskin, Louis. The Hidden Persuaders (via Wikipedia).
(Porque até as cores que escolhemos nos escolhem a nós primeiro)
– Coriat, Benjamin. El Taller y El Cronómetro: Ensayo sobre el Taylorismo y el Fordismo. Madrid: Siglo XXI, 1993.
(Quando as fábricas descobriram como embalar mentes junto com produtos)
– Frankopan, Peter. As Novas Rotas da Seda: O Presente e o Futuro do Mundo. Lisboa: Relógio D’Água, 2019.
(Porque o colonialismo moderno usa fibra óptica em vez de navios)
– Huxley, Aldous. Admirável Mundo Novo. Lisboa: Antígona, 2013.
(Onde aprendemos que os campos de concentração do futuro terão Netflix e antidepressivos)
– Krastev, Ivan. O Futuro por Contar: Como a Pandemia Vai Mudar o Nosso Mundo. Lisboa: Objetiva, 2020.
(Porque entender as crises é o primeiro passo para não sermos engolidos por elas)
– La Boétie, Étienne. Discurso Sobre a Servidão Voluntária. Lisboa: Antígona.
(O clássico renascentista que explica porque adoramos as nossas próprias algemas)
– Moore, Martin. Democracia Manipulada. Lisboa: Self PT, 2019.
(Guia de sobrevivência para eleitores na era da pós-verdade)
– Orwell, George. 1984. Lisboa: Antígona, 2012.
(O livro que deixou de ser ficção para se tornar manual de instruções)
– Zamiatine, Evgueni. Nós. Lisboa: Antígona, 2017.
(O avô esquecido de 1984, onde a matemática suplanta a humanidade)
Nota final:
(Artigo originalmente publicado em 5/10/2020 na página com o seguinte link https://www.forumcovilha.pt/noticias/noticia/?idn=18075 Revisto e republicado para o MaisBeiras, porque, caros leitores, confirmámos que o Admirável Mundo Novo afinal era um documentário – e nós os ingénuos a acharmos que era ficção.