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Diretor: Paulo Menano

Opinando: “Poderá ser de outro modo?” de Carlos M. B. Geraldes

«O homem assim aleijado como nós o conhecemos, é o animal mais absurdo, o mais disparatado e incongruente que habita na terra.»

Almeida Garrett, in Viagens na minha Terra

Que tempo é este?

Tempo de surdez da alma, da nobreza de caráter degradado, conversão da consciência a mero artigo, de um corpo reduzido a um mero cadáver adiado e a simulacros de parecer, gente “perfeita, virtuosa e de sucesso” mas também é tempo de romper com a matriz quanto ao modo de se escrutinar o agir político da nossa república e ousar penetrar no princípio de uma revolução mental do agir, quebrando relações assentes numa validação contratual obsoleta, e introduzir no agir uma literacia assente num discernimento claro, objetivo, racional e que acrescente algo mais ao melhor do que é ser-se humano.

Ora, dizermos que é errado ou insano pensar desta forma é o mesmo que denunciar um receio/medo no agir e declararmo-nos incapazes de pôr em prática uma razão, capaz de outras possibilidades de ser, que exige ir além do preconceito, do preestabelecido, da autonegação, do convencional e da possibilidade de reorganizarmos/refundarmos o nosso agir político, fundado numa atitude predatória, mensurável, observacional, malévola e com o intuito de descodificar a intencionalidade do outro para ser dominado, quanto ao modo e à forma da sua vontade se constituírem como um ser humano capaz de viver em comunidade.

As pessoas, na sua maioria, têm medo porque o conformismo e a velhacaria mesmo que prejudique as gerações mais novas, no futuro,  são preferíveis a tudo o resto, isto é, em primeiro lugar o Eu e depois os que vêm a seguir, os descendentes, que se amanhem. Prefere-se viver, com uma virtude pecaminosa, sob o silêncio malévolo e as intenções de um poder que as orbita na sua individualidade como uma lâmina dentro de um medo com um poder profundamente predador.

Dá-se, assim, início a uma aventura dos cidadãos “vendidos” a não serem corretos consigo, sem liberdade sobre a sua mentes e prisioneiros de uma intenção que os desabilita na capacidade de sustentarem a sua vontade de controlo.

A triste natureza do agir político passou a ser submetida, de forma servil, a princípios que não vão ao encontro da sua vontade de ser, mas sim de uma política que não visa um novo indivíduo social, mas sim o instituir de sistemas políticos que produzem, incessantemente e maquinalmente, os mesmos padrões de comportamento e que reduzem os governados a um controlo total, por intermédio do medo e de engodos de prazer ilusório, negando-lhes a atração pelo poder ser livre, e pelo fascínio do vazio dos atos de se exercer o poder.

É o desencontro com o próprio cidadão !

Ir contra o afirmado é sinónimo da inversão no hábito de fazer política, ou seja, substitui-se um modo de ser político, alicerçado na observação e no domínio sobre os governados, por um novo “estatuto” sobre o que é ser-se de facto humano e por um regresso ao contrato alicerçadao na ideia de Bem, passando, assim, a estabelecer relações sociais libertadores, integradas e integradoras de diferenças, anulando o determinismo altamente mecanizado que, direta ou indiretamente tanto aniquila os governantes como os governados.

Por conseguinte, este indivíduo assegura sempre o princípio de que a essência da política tem como função primeira libertar, dando condições e não criando princípios de resignação perante os interesses que dominam numa atitude de sobrevivência servil, mas sim de participação que permita criar um comportamento que varra, em definitivo, do poder a coação e da sociedade o vício de uma produção maquinal altamente estandardizada.

Isto é, deverá colocar fim a uma liberdade má, exploradora do outro, impedidora de uma nova forma de fazer política, de que só poucos beneficiam, dado não corresponder ao todo, engendrando secretamente calamidades ao agir humano, em vez de fazer florescer uma consciência que represente uma liberdade de vontade de ser e incentivá-la a exercer comportamentos que mais não são do que um subproduto do que não é a liberdade, mas sim servidão total e que na essência não representa nada em si mesmo, dado a sua perniciosidade em querer assumir-se como essencialmente política, ou seja, corresponderá a uma “terra de ninguém” onde a desgraça reside no medo e no limitar-se a existir.

Como nos diz Eugénio de Andrade, in Os Afluentes do Silêncio, é insistir num ser humano “desamparado até à medula, afogado nas águas difíceis da sua contradição, morrendo à míngua de autenticidade – eis o homem!»

Poderá ser de outro modo?!