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Opinando: “Refletir sobre o basquetebol português: do Litoral ao Interior, do minibasquete ao alto rendimento”, artigo de Daniel Branquinho

Refletir sobre o basquetebol português: do Litoral ao Interior, do minibasquete ao alto rendimento, por Daniel Branquinho

Vivemos atualmente numa era digital, na qual as atuais “novas” gerações correm o risco de se tornarem pela primeira vez menos inteligentes que as gerações anteriores. Temos, mais que nunca, o maior acesso ao conhecimento, à informação e ao contacto permanente com outras realidades, nomeadamente no referente às boas práticas que se vão realizando na modalidade e na promoção da prática desportiva, que se realiza em todo o mundo. Apesar da atual janela de oportunidade, constatamos que o basquetebol, digam o que disserem os altos responsáveis pela modalidade, encontra-se num processo de entropia, com provável origem na manutenção dos mesmos processos e metodologias implementados há décadas e na baixa capacidade de replicar com as devidas adaptações, as boas práticas existentes por esse mundo fora.

Dentro das diversas áreas de desenvolvimento do basquetebol, queria destacar algumas áreas que foram selecionadas por conhecimento de causa e por “sensibilidade/predisposição” profissional para as mesmas. Dentro das minhas limitações, irei colocar algumas questões/sugestões nas seguintes áreas: Minibasquete, Escalões de Formação, Quadros competitivos na formação, Promoção e desenvolvimento do talento, Seleções distritais e Associações Regionais, muito mais haveria a mudar e reformar quer no basquetebol de formação quer no alto rendimento.

Minibasquete

No referente ao minibasquete, constatamos que a grande maioria dos treinadores alocados a estes escalões são treinadores muito jovens e inclusive jovens atletas, pelas mais variadíssimas razões. Também, constatamos que em muitos clubes, O Minibasquete não é um dos escalões de desenvolvimento prioritário, que servirá de base para todo o desenvolvimento desportivo dos clubes.

Urge assim a política de implementação de políticas desportivas, que permitam em simultâneo um aumento do número de praticantes de forma significativo, bem como da utilidade de trabalho e estímulos proporcionados, promovendo desta forma uma “Massificação Qualitativa” do minibasquete. Tal só será possível através da implementação de um programa nacional que vise sobretudo a promoção de competências em várias áreas, que servirão de base para que as nossas crianças e jovens incrementem e valorizem o gosto pela prática da modalidade, bem como a promoção de competências motoras essenciais. Este programa deverá ser claro e conciso, no referente às competências individuais e coletivas a desenvolver em cada uma das etapas, de modo a facilitar a sua leitura, implementação e avaliação.

Desta forma, seria possível que os órgãos orientadores sejam eles o diretor técnico nacional do minibasquete, os responsáveis associativos ou os coordenadores dos clubes possam auxiliar os jovens treinadores e garantir que as crianças em idade de minibasquete adquiram as chamadas aprendizagens essenciais nesta etapa de desenvolvimento.

Associações Regionais

Todas as associações distritais devem elaborar o seu plano estratégico a longo prazo, tendo por base as orientações emanadas pela Federação Portuguesa de Basquetebol, adaptando as decisões à realidade local. Este plano deverá ser do conhecimento de todos os agentes desportivos, os quais devem ser convidados a participar, devendo conter os objetivos operacionais a curto, médio e longo prazo, os quais devem ser mensuráveis e devem incluir também o conjunto de tarefas a desenvolver para alcançar esses mesmos objetivos. As associações não devem reduzir a sua comunicação e trabalho a objetivos demasiado gerais tais como: “vamos investir no minibasquete”; “vamos aumentar o número de atletas”, devemos sim indicar de forma concreta como os iremos concretizar.

A título de exemplo, devem as associações determinar o número de atletas a atingir, tendo por base a demografia local, oferta desportiva e balizar objetivos mensuráveis, tais como a taxa de penetração.

Outro aspeto a melhorar, o qual já se vai observando é a criação de sinergias entre todas as associações, não só de forma pontual, tornando o trabalho em conjunto mais efetivo e cooperativo.

Os diretores técnicos regionais deverão ter todos as mesmas condições de trabalho e vínculo com a federação e respetivas associações. Não pode haver associações de primeira e de segunda, nem diretores técnicos a tempo inteiro e outros a tempo parcial que são mais agentes administrativos do que de supervisão e orientação técnica. Somente desta forma, estes mesmos diretores e associações poderiam dar resposta às linhas de desenvolvimento da modalidade emanadas pela federação.

Seleções Distritais

Mais do que um conjunto de atletas que marcam presença nas festas do basquetebol em representação de uma determinada zona do país, as seleções distritais devem, efetivamente, devem ser constituídas por atletas que pelas suas capacidades e margem de aprendizagem contém um conjunto de características que podem ser referencia para num futuro serem elegíveis para as seleções nacionais.

Por outro lado, dentro do planeamento nacional e regional dos trabalhos das seleções, deve ser garantida a equidade de participação desportiva, inicialmente a nível quantitativo, garantido um número mínimo de jogos de preparação, jogos oficiais realizados nos clubes, número de treinos de preparação promovidos pelas associações distritais e posteriormente a nível qualitativo através da formação e orientação dos quadros técnicos. Atualmente é inconcebível que à data de início das festas do basquetebol existam seleções que tenham realizado mais de 30 treinos e outras eu não tenham realizado nem 10.

Esta garantia de serviços mínimos deve, naturalmente, ter em conta a manutenção da identidade regional que vai caracterizando o basquetebol desenvolvido nas várias zonas do país.

Escalões de Formação

Outro dos aspetos sobre o qual devemos realizar uma reflexão profunda é a reformulação dos escalões de formação, sobretudo nos escalões de transição do minibasquete com os escalões em que surgem quadros competitivos mais organizados. Neste aspeto, deveríamos tentar reduzir o impacto dos fatores maturacionais nos escalões de minibasquete. Ano após ano, vamos verificando que os atletas que obtêm mais resultados, confundível com sucesso desportivo, são aqueles que iniciam o incremento de velocidade e de crescimento em altura mais cedo, os que são avançados maturacionalmente. Na minha opinião, dentro dos diversos fatores, no minibasquete devemos dar destaque ao desenvolvimento das habilidades motoras e habilidades desportivas, integradas num sistema de tomada de decisão individual em função de acções grupais simples, resumindo FUNDAMENTOS. Nestas idades, aqueles que com 12 anos apresentam já um desenvolvimento maturacional avançado alcançam resultados favoráveis através de um leque muito reduzido de ações técnicas, fruto das maiores dimensões corporais. Sabemos desde há muito que o fenómeno denominado take-off (início do incremento da velocidade de crescimento em altura) ocorre para a grande maioria da população, salvo as normais exceções, em pleno escalão de sub-12. Sabendo isto e tendo as bases para sustentar esta decisão, porque não alteramos os escalões para mini-11, sub-13…..

Neste sentido, seria importante realizar um ajuste, nestes mesmos escalões de minibasquete, mas também nos escalões de competição. Mais, sabendo da variabilidade intra e interindividual que ocorre nestas idades cujo intervalo se reduz quando os atletas atingem a idade adulta.

Desta forma, urge uma reformulação dos escalões com base em premissas científicas com claros objetivos balizadores para o minibasquete, escalões de competição e respetivas etapas de aprendizagem.

Quadros Competitivos

No âmbito da elaboração dos quadros competitivos no desporto infanto-juvenil, mais do que a elaboração de campeonatos que irão determinar campeões de âmbito local, ou nacional, no processo formativo dos atletas, importa garantir um número mínimo de jogos a realizar por época desportiva a TODOS os atletas abrangidos pela Federação Portuguesa de Basquetebol. Apesar de atualmente começarem a surgir bons exemplos de como mudar este paradigma (dando como exemplo o Campeonato de Basquetebol do Centro). Não podemos permitir que pelo simples facto de um clube estar localizado numa zona geográfica com baixa expressão, esses mesmos atletas estejam limitados a realizar meia dúzia de jogos por época, com baixa qualidade e reduzida intensidade, seja física, seja cognitiva. Todos os atletas deveriam ter a oportunidade de realizar um mínimo 30 jogos por época, para que dentro do planeamento e promoção de aprendizagens, esses mesmos jogos sejam utilizados como meio de avaliação do trabalho desenvolvido (processo) e não somente como meio de valorização dos resultados.

Promoção e desenvolvimento de Talento

No referente ao talento desportivo no basquetebol português, verifica-se que não existe uma linha orientadora pública e clara acerca do processo de desenvolvimento destes atletas. Qual o perfil que procuram as seleções nacionais? Qual o perfil de atleta é que nós treinadores deveremos desenvolver para servir o basquetebol nacional? Quais os pré-requisitos e competências mínimas que o jogador português deve apresentar? Não existindo uma linha orientadora e clara não será possível que as associações, clubes, treinadores participem de forma ativa no desenvolvimento e potenciação do jogador português. Ao invés, deixamos constantemente ao acaso que, através de uma conjugação de fatores aos quais podemos chamar “sorte”, estes atletas apareçam no local certa à hora certa, para que alguém diga que são jogadores interessantes. Sinto claramente uma lacuna neste sentido, principalmente quando olhamos para outros países, que implementam esses mesmos programas de forma altamente profissional, por agentes especialistas nas diversas áreas das ciências do desporto e do desenvolvimento infanto-juvenil. São estes que poderão dar credibilidade ao trabalho desenvolvido, gerando informação constante do desenvolvimento destes atletas, informação esta que poderá e deverá ser utilizada pelos treinadores que lidam com os atletas diariamente e tornar assim ser possível melhorar a qualidade do trabalho e estímulos promovidos. Existem bons exemplos deste tipo de metodologia em Portugal e noutras modalidades.

Deixo desta forma breves reflexões acerca de eixos estratégicos, que considero prioritários para mudar o rumo do basquetebol de formação português.

Daniel Branquinho