Mais Beiras Informação

Diretor: Paulo Menano

OPINANDO: Selvagens com Inteligência Artificial


A Europa precisa de evoluir: o verdadeiro atraso não é tecnológico, mas mental. Enquanto a ciência prepara uma transformação radical da condição humana, o fanatismo, a violência e a demagogia ameaçam os fundamentos da civilização.

A Europa vive um paradoxo histórico. Nunca teve tanto conhecimento científico, tanta capacidade tecnológica, tantos instrumentos para melhorar a condição humana. A inteligência artificial, a biotecnologia, a neurociência e a medicina abrem possibilidades que, há poucas décadas, pertenciam à ficção científica. E, no entanto, assistimos todos os dias a comportamentos que desmentem séculos de progresso intelectual e moral.

Enquanto os cientistas procuram combater doenças e prolongar a vida, há quem explore os instintos mais selvagens das multidões: o medo, o ressentimento, a intolerância, o ódio. Certos bárbaros da política, escondidos atrás de uma falsa virtude pública, empurram a sociedade para o tribalismo, a manipulação e o confronto.

Construímos máquinas cada vez mais inteligentes, mas continuamos de cócoras perante discursos irracionais. Temos meios extraordinários de comunicação, mas a mentira circula sempre mais depressa do que a verdade. Falamos de liberdade, mas não sabemos respeitar a dos outros.

De que serve conquistar o futuro tecnológico se continuarmos prisioneiros da barbárie mental?

No meu simples entendimento, esta pergunta deveria estar no centro do debate europeu.

O transumanismo como projeto de civilização

O transumanismo defende que a ciência e a tecnologia devem superar as limitações humanas e reduzir o sofrimento causado pela doença e pelo envelhecimento. Obriga-nos, sobretudo, a pensar no que entendemos por progresso.

Se melhoramos o corpo, porque não havemos de procurar melhorar também o raciocínio, o autocontrolo, a compreensão dos outros? Se a ciência combate doenças do cérebro, não deve ajudar a perceber a violência, a manipulação, a radicalização? Se a inteligência artificial processa informação, não deve servir o pensamento crítico e a resistência à desinformação?

Não acredito que um implante cerebral elimine a violência, nem que a tecnologia fabrique virtudes. Seria ingénuo pensar que um ser humano aperfeiçoado seria, por esse simples facto, moralmente superior. A inteligência não garante a bondade, tal como o conhecimento não assegura a justiça.

Mas seria igualmente irresponsável rejeitar, por preconceito bacoco ou por medo, tudo o que a investigação possa oferecer. O desafio é conjugar inovação, educação, responsabilidade e ética. Não para criar pessoas obedientes, mas pessoas autónomas, capazes de pensar pela própria cabeça e menos vulneráveis à burrice e à manipulação.

O verdadeiro progresso não está em fabricar seres humanos mais poderosos, mas em torná-los mais capazes de usar o poder com inteligência e responsabilidade.

Quando a liberdade serve de pretexto à violência

Protestar é um direito fundamental. Uma sociedade que proíbe a contestação não é livre. O problema começa quando a manifestação se torna intimidação e a violência substitui a argumentação.

É preciso distinguir, com rigor, quem protesta pacificamente de quem agride, ameaça ou destrói. A lei aplica-se a todos, sem privilégios nem discriminações. A tolerância não é impunidade. A liberdade não é ausência de regras. E a democracia não pode ser um sistema incapaz de proteger os cidadãos de quem recorre à força para impor a sua vontade.

Mas há uma condição essencial: combater a barbárie sem nos tornarmos bárbaros. Quando se classificam populações inteiras como inferiores, quando o adversário vira inimigo da humanidade, quando se atribui a um grupo inteiro a culpa de uns poucos, abandona-se a razão e imita-se aquilo que se pretende combater. A firmeza democrática exige o contrário: distinguir comportamentos, apurar responsabilidades individuais, defender a dignidade humana sem abdicar da lei.

A responsabilidade das forças políticas

A violência nas ruas não se explica sem olhar para quem alimenta o conflito. Há dirigentes que prosperam com a divisão, fazem do medo um instrumento eleitoral e vendem soluções simples para problemas complexos. Em vez de esclarecer, exploram inseguranças. Em vez de debater, alimentam a hostilidade.

Isto não pertence a uma família ideológica. A demagogia veste todas as cores. O que a define é o uso deliberado da mentira, da manipulação e do ressentimento para conquistar ou conservar o poder.

Não se combate a demagogia proibindo opiniões incómodas. Combate-se tornando os cidadãos menos dependentes delas. Por isso a escola é decisiva: ensinar a pensar, verificar fontes, reconhecer falácias e argumentar com rigor vale tanto como transmitir ciência. Uma população que não distingue informação de propaganda é presa fácil de quem domina a arte de manipular emoções.

Uma nova etapa da evolução humana

O transumanismo não pode servir para criar uma elite biológica que se julgue superior ao resto da humanidade. Reservado aos mais ricos, gerará novas desigualdades. Usado para vigiar consciências ou impor comportamentos, será instrumento de dominação. Exige, por isso, garantias éticas, supervisão democrática e acesso justo.

Nada disto é uma saída mágica. A violência tem causas diversas, e a radicalização não se reduz a uma deficiência biológica ou cognitiva. Por isso o progresso tem de ser multidimensional: cidadãos informados, instituições competentes, oportunidades educativas, políticas públicas eficazes e uma cultura democrática que não faça de cada divergência uma guerra moral.

O valor de uma pessoa não depende do seu quociente intelectual, da sua condição física ou do aperfeiçoamento tecnológico a que teve acesso. O objetivo é ampliar a liberdade humana, não criar novas hierarquias de dignidade.

Superar os nossos próprios limites

Talvez a verdadeira revolução transhumanista não comece quando prolongarmos indefinidamente a vida ou integrarmos o cérebro em sistemas artificiais. Talvez comece quando percebermos que o progresso científico, por si só, não nos torna melhores, e que a evolução das capacidades tem de andar a par com a evolução da responsabilidade.

A grande questão não é se criaremos máquinas mais inteligentes do que nós. É se teremos inteligência suficiente para governar o poder que estamos a criar.

A Europa não precisa de se declarar superior aos outros povos. Precisa de provar, pelos atos, que se pode ser tecnologicamente avançada sem ser desumana, firme sem ser tirânica e livre sem ser irresponsável. Tem conhecimento, recursos e instituições. Falta-lhe, por vezes, a vontade política de pôr o futuro acima dos interesses imediatos.

O futuro não pertence aos que gritam mais alto nem aos que prometem soluções fáceis. Pertence aos que pensam melhor, agem com responsabilidade e constroem uma sociedade onde a razão seja mais forte do que o ódio.

A maior ameaça ao futuro europeu não é sermos ainda humanos, com todas as nossas imperfeições. É aceitarmos que a ignorância, o fanatismo e a irresponsabilidade continuem a governar o nosso destino.

E nenhuma tecnologia, por mais avançada que seja, salvará uma civilização que tenha desistido de pensar.

Carlos M. B. Geraldes, PhD