OPINANDO: O poder partilha-se
A derrota de Trump nas intercalares devolve ao Congresso a capacidade de fiscalizar, mas não de governar sozinho.
Os eleitores americanos fizeram ontem o que as democracias, quando funcionam, sabem fazer: devolveram o poder a quem o tinha perdido. Os Democratas conquistaram a Câmara dos Representantes e o Senado, e Donald Trump deixa de controlar o Congresso a meio do segundo mandato. A contagem ainda não terminou. No Senado, os Democratas passaram de 51 para 53 lugares ao longo da madrugada, e o número de lugares virados varia entre seis e sete, consoante se inclua ou não o Maine. Os totais finais só se conhecerão depois da certificação.
O mais revelador é o terreno em que a vitória aconteceu. Nove estados usaram novos mapas distritais, depois do impulso de Trump a meio da década. O Supremo Tribunal autorizou o novo mapa do Texas em dezembro de 2025 e o da Califórnia em fevereiro. Ainda assim, os Democratas passaram os 218 lugares na Câmara e venceram em distritos redesenhados pelos republicanos, três deles na Florida. Na minha leitura, a engenharia de mapas tem limites: pode atenuar uma derrota, mas não impede que uma maré política a atravesse.
A noite eleitoral foi também um teste às instituições. Na véspera do voto, o Supremo demorou seis horas e 24 minutos a recusar o pedido da Administração para interferir na contagem de boletins na Califórnia, o que interrompeu uma série de vitórias de Trump em casos eleitorais. A Administração tentou ainda intervir na corrida ao Senado no Alasca, e um juiz federal rejeitou o pedido. Não vejo motivo para triunfalismo. Vejo um sistema a funcionar sob pressão, com juízes que aplicaram as regras sem olhar a quem as invocava. Trump disse estar disposto a aceitar os resultados, e convém que os atos das próximas semanas confirmem as palavras.
As disputas sobre os mapas vão continuar. No Missouri, o Supremo impediu em setembro o uso do novo mapa nestas eleições, e o tribunal estadual exigia antes um referendo. Os tribunais terão de voltar ao assunto.
Seria um erro ler esta vitória como uma viragem completa. O Presidente conserva o veto, e para o ultrapassar são precisos dois terços das duas câmaras, ou seja, votos republicanos. Os Republicanos mantêm também, no Senado, meios para bloquear medidas maiores. O que os Democratas ganham é capacidade de fiscalizar, investigar e condicionar o orçamento. É um poder real, mas diferente do de governar.
Essa diferença pesa na política externa, onde o Congresso influencia mais do que decide. Pode apoiar a Ucrânia, mas só impõe a sua vontade com maiorias que hoje não tem sozinho. Segundo as sondagens anteriores ao voto, o custo de vida era a principal preocupação dos eleitores, e as tarifas pesam nos preços. Uma analista do Council on Foreign Relations (CFR) argumenta que as tarifas altas tendem a durar, seja qual for o partido no poder. Quem espera da Europa um regresso rápido à previsibilidade arrisca-se a uma desilusão.
Resta a incógnita mais difícil: como reage um presidente à derrota. Vários governos perguntam-se se Trump moderará o rumo ou procurará compensação no exterior. O CFR refere que ele sugeriu a possibilidade de escalar a guerra com o Irão depois das eleições. Nenhuma das hipóteses está confirmada, e é prudente não as tratar como certas. Um aliado atento também não as pode ignorar, até porque as primeiras reações internacionais apontam para efeitos no comércio, na segurança e na energia.
Para os leitores portugueses, a conclusão é prática. A vitória democrata não resolve a relação transatlântica, mas dá-lhe um interlocutor adicional em Washington, e isso já é muito. Num tempo em que se confunde força com concentração de poder, a mensagem dos eleitores foi simples: o poder partilha-se, e quem o esquece acaba por ser lembrado nas urnas.
Hugo Andrade
Fontes de informação consultadas
Council on Foreign Relations: https://www.cfr.org/articles/foreign-policy-and-the-2026-midterms-a-cfr-guide
CNN: https://us.cnn.com/2026/11/03/politics/live-news/midterm-election-congress
DW: https://www.dw.com/en/what-us-midterm-elections-mean-for-ukraine-iran-and-elsewhere/a-79836423
The New York Times: https://www.nytimes.com/2026/11/04/world/asia/midterms-trump-foreign-policy-world.html

