OPINANDO: Ouvimos. E Ficámos
Na Odisseia, as sereias não atacam — cantam. E o seu canto promete o irresistível: saber tudo, compreender tudo. Hoje, o canto mudou de forma. Mas a promessa é a mesma.
“Vem cá, ilustre Ulisses… ouvirás a nossa voz, e partirás mais sábio.” Odisseia, Canto XII, vv. 184–186
Ulisses toma então uma decisão extraordinária: manda os seus homens taparem os ouvidos com cera e ordena que o amarrem ao mastro. Quer ouvir — mas não quer ceder. Quando sucumbe ao desejo, os companheiros apertam ainda mais as cordas. É salvo pela sua própria fraqueza previamente assumida.
“Ordenava com sinais que o soltassem” — e eles “apertaram ainda mais as cordas.” Odisseia, Canto XII, vv. 193–196
Nunca foi tão fácil “saber” como nos dias de hoje. E, no entanto, nunca foi tão difícil distinguir entre conhecimento e ruído. Notícias, opiniões, escândalos, teorias — tudo chega com a mesma urgência, a mesma autoridade.
O risco não é apenas sermos enganados. É ficarmos presos — ao ciclo infinito de consumo, à ilusão de que mais informação equivale a mais compreensão. Tal como aqueles que, ouvindo as sereias, esqueciam o regresso.
E, tal como o canto das sereias, muitos dos mecanismos que hoje capturam a nossa atenção não são neutros. São desenhados para prender. Para prolongar o tempo de exposição. Para transformar curiosidade em dependência.
Talvez o maior perigo não seja ouvir o canto das sereias — mas deixar de querer continuar a viagem.
A grande lição da Odisseia não é evitar a tentação, mas preparar-se para ela. Ulisses não confia na sua força de vontade — cria condições para não falhar. Talvez devêssemos fazer o mesmo: definir limites, filtrar fontes, aceitar que não podemos, nem devemos, absorver tudo.
Ulisses sobreviveu porque reconheceu que não era imune. Nós, convencidos da nossa autonomia, arriscamo-nos a não fazer o mesmo.
Ao contrário de Ulisses, não há ninguém para nos amarrar ao mastro, perdidos num mar de informação.
Para quem queira aprofundar: Homero., Odisseia, Trad. Frederico Lourenço. Editor: Quetzal Editores, 2018.
Carlos M.B. Geraldes, PhD
