OPINANDO: Enquanto o Mundo Fala de IA, Maquiavel e Kissinger Explicam Quem Tem o Poder
Num tempo em que se fala tanto de tecnologia, globalização e inteligência artificial, pode parecer estranho voltar a autores antigos para entender o mundo atual. Mas a verdade é que muitos dos grandes conflitos internacionais continuam a obedecer às mesmas regras de sempre: poder, estratégia e sobrevivência. É precisamente isso que une Niccolò Machiavelli e Henry Kissinger.
Apesar de separados por quase quinhentos anos, ambos ajudam a compreender porque razão os Estados continuam a disputar influência, território e segurança. E, olhando para o mundo de hoje — da guerra na Ucrânia à rivalidade entre os Estados Unidos e a China — percebe-se que as suas ideias continuam muito atuais.
No livro Sobre a China, Kissinger explica que a China pensa a política de forma muito diferente do Ocidente. Enquanto os americanos tendem a agir de forma mais direta e imediata, os chineses privilegiam a paciência, a estratégia de longo prazo e o cálculo cuidadoso. Para a liderança chinesa, a história tem um peso enorme, e as decisões são tomadas pensando não apenas nos próximos anos, mas nas próximas décadas.
Esta visão faz lembrar muito o pensamento de Maquiavel em A Arte da Guerra. O autor florentino defendia que um Estado só é respeitado quando possui força e organização. Para ele, boas leis e bons governos não sobrevivem sem capacidade de defesa.
Maquiavel acreditava ainda que um povo livre deve ser capaz de se defender sozinho. Criticava os mercenários e os exércitos privados porque, segundo ele, quem luta apenas por dinheiro acaba por trair facilmente. A ideia pode parecer distante da realidade atual, mas continua relevante: hoje, muitos países dependem economicamente, militarmente ou tecnologicamente de grandes potências, o que limita a sua autonomia.
O que mais impressiona nestes dois autores é o seu realismo. Nem Maquiavel nem Kissinger escrevem sobre como o mundo deveria ser; escrevem sobre como ele realmente funciona. Ambos entendem que os Estados tomam decisões sobretudo com base nos seus interesses e na necessidade de garantir estabilidade e segurança.
Isso não significa defender guerras ou autoritarismos. Significa apenas reconhecer que a política internacional raramente é guiada apenas por valores morais. A história mostra que países frágeis, divididos ou incapazes de proteger os seus interesses acabam muitas vezes dominados por outros mais fortes.
Num momento em que a China cresce economicamente, os conflitos internacionais multiplicam-se e a Europa enfrenta novos desafios de segurança, vale a pena revisitar estes pensadores. Eles recordam-nos que a estabilidade de um país depende não só da economia, mas também da capacidade estratégica, da coesão interna e da preparação para tempos difíceis.
Talvez a maior lição de Maquiavel e Kissinger seja simples: o poder nunca saiu de moda. Mudam os discursos, mudam as tecnologias e mudam os líderes, mas a luta por influência e segurança continua a marcar, para o bem e para o mal, a história das nações.
Carlos M. B. Geraldes PhD
Para quem queira aprofundar:
Kissinger, H., Da China, Quetzal Editores, 2011
Maquiavel, N., A Arte da Guerra, Editor: Edições Sílabo
Maquiavel, N., O Príncipe, Editor: 11 X 17
Jaivin, Linda, A Mais Breve História da China, Editor: Dom Quixote, junho de 2022
Peter Frankopan , As Novas Rotas da Seda O presente e o futuro do Mundo, Editor: Relógio D’Água, Edição: março de 2019
Carlos M. B. Geraldes
