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Diretor: Paulo Menano

OPINANDO: Hoje


Hoje, ao despertar naturalmente às 6h00, e após aqueles momentos de sonolência matinal, dei-me conta de que sonhara com Ivan Ilitch. Se o leitor não souber de quem se trata, aconselho-o vivamente a descobrir. Mas já lá vamos.

Fiquei, por momentos, intrigado com tal devaneio do inconsciente. O que o terá levado a suscitar, durante a noite, semelhantes invocações?

É certo que Ivan Ilitch é uma personagem de uma obra de Tolstói, autor que, por acaso, admiro. Sempre fui um afoito apreciador do mundo real, em detrimento da fantasia.

Mas, lá por ser banal sonhar — acham alguns —, hoje decidi aprofundar este fenómeno do nosso inconsciente. A tal ponto que até serviu de mote à escrita.

Na véspera, estivera a jantar com um amigo de longa data e, como bons compinchas, debatemos o estado das coisas.

A certa altura, demos por nós a olhar em frente e, quase em simultâneo, a expressar o mesmo: a rotina, o sem-sal da vida, apoderara-se de nós. A vida tornara-se insossa.

A questão impõe-se de imediato: tem de ser assim? Um ramerrão feito de muito pouco?

Corre-se atrás da carreira num esforço exasperado para dar sentido à vida. Mas será a carreira a própria vida?

Já vi muito amalucado — e amalucada — por aí a deixar os filhos à espera por causa de um e-mail que «ainda tenho de enviar», de uma reunião que alimenta o ego ou até de um esforço hercúleo no trabalho, apenas para mostrar que tem valor.

Uau. Parabéns. Acabaram de ganhar a medalha de ouro da tontaria. Quando o dia sem sal chegar, quantos anos vos restarão? E, quando olharem para trás, o que vos identificará enquanto seres humanos?

Tanto esforço para nada.

Basta mudar o padrão. E deixa de ser esforço.

Cuidar de um filho, acompanhar uma filha ou estar presente para um companheiro ou uma companheira deixa de ser esforço e passa a ser um gosto.

Algo está errado quando a gritaria ensandecida do perfil de workaholic se sobrepõe àqueles que são tudo para nós.

De um momento para o outro, passam a ser alvos. Sofrem com a má conduta de quem os magoa e recebem toda a frustração de um pateta sem noção, obcecado com o trabalho de sonho ou com qualquer outra visão estrábica da vida.

Mas… e se não fosse nada disso? E se o trabalho fosse apenas uma ferramenta que essa gente encontra para se identificar e afirmar como pessoa?

História de vida: «Era um profissional de excelência.» «Era uma pessoa com uma enorme capacidade de trabalho.»

Não. Era uma besta. Desperdiçou a vida sem perceber que o melhor que ela tinha lhe passou ao lado.

Quanto a Ivan Ilitch, morreu relativamente novo. Grande figura social, morreu vítima da futilidade. Deixou uma viúva que detestava — uma mulher com quem viveu uma existência sem sal e que, durante a sua curta vida, apenas lhe engrandeceu ainda mais a nugacidade.

Leiam.

Filipe André