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OPINANDO: Poder – Liberta ou prende? A pergunta que Cícero faria aos influencers e …


Há histórias antigas que resistem ao tempo porque tocam em algo permanente da condição humana. A espada de Dâmocles é uma delas.

Contada por Cícero nas Tusculanas, a história é simples: Dâmocles admirava Dionísio, um governante poderoso. Via nele riqueza, influência e prestígio — tudo o que ainda hoje se confunde com sucesso. Dionísio, cansado dessa admiração, propôs-lhe algo diferente: sentar no seu lugar durante um banquete. Dâmocles aceitou. Mas a certa altura ergueu os olhos e viu uma espada suspensa sobre a sua cabeça, presa por um único fio. O luxo desapareceu de imediato. O que ficou foi o medo.

A lição de Cícero era precisa: o poder não garante paz. Garante, isso sim, a consciência permanente de que tudo pode desmoronar.

O que surpreende é a sua atualidade. Vivemos num tempo em que a aparência de sucesso exige manutenção constante. Nas redes sociais, no mundo profissional, até nas relações pessoais, existe uma pressão silenciosa para demonstrar valor — competência, felicidade, controlo. Quem não corresponde às expectativas arrisca perder visibilidade, credibilidade ou pertença.

A espada mudou de forma. Hoje chama-se medo de falhar, de ser substituído, de deixar de ser relevante.

Nas Tusculanas, Cícero argumentava que a verdadeira tranquilidade não depende daquilo que se possui, mas da forma como se habita a própria vida. Quem constrói a sua segurança sobre aprovação externa fica permanentemente vulnerável — porque aquilo que os outros dão, os outros podem retirar.

Esta é, talvez, a lição mais incómoda da história de Dâmocles: não foi o banquete que o perturbou. Foi descobrir o preço de estar naquele lugar.

Num tempo em que tantas pessoas vivem ansiosas por parecer bem-sucedidas, vale a pena fazer a pergunta que Cícero fez há mais de dois mil anos: a posição que procuramos — liberta-nos, ou prende-nos?

Carlos M. B. Geraldes, PhD

Referência bibliográfica:

Cícero, Marco Túlio, Discussões Tusculanas, Editora: ‎ SciELO – EDUFU, 2014