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Diretor: Paulo Menano

OPINANDO: A época começa. E o exemplo também.


Há um momento, todos os anos, em que o desporto de formação recomeça. Reabrem-se portas, enchem-se balneários, reaparecem equipamentos, horários, treinos e jogos.

E milhares de crianças voltam a entrar num campo, num pavilhão, numa piscina, numa pista ou num tatami.

Algumas chegam com o sonho de serem campeãs. Outras querem simplesmente estar com os amigos. Muitas nem sequer sabem ainda o que procuram. Mas todas vão aprender alguma coisa. A questão é saber o quê. Uma nova época não começa apenas com uma inscrição, um calendário ou o primeiro treino. Começa também com os exemplos que os adultos vão dar. E aqui está uma responsabilidade que não podemos continuar a ignorar.

Um clube é muito mais do que o lugar onde se pratica uma modalidade. Em muitas comunidades, é uma das instituições com maior valor social. É espaço de encontro, pertença, integração e aprendizagem. Junta gerações, cria amizades, combate o isolamento e ajuda a formar cidadãos.

E grande parte deste trabalho acontece graças a pessoas que quase nunca aparecem nas fotografias. Dirigentes voluntários que saem do trabalho e vão para o clube. Pessoas que passam horas a tratar de inscrições, equipamentos, transportes, instalações, seguros, calendários e problemas que ninguém vê. Treinadores que dedicam muito mais tempo do que aquele que aparece no horário do treino. Famílias que fazem quilómetros para que os filhos possam praticar uma modalidade. É um trabalho exigente. Muitas vezes ingrato. Quase sempre feito por paixão. Merece reconhecimento.

Mas merece também uma pergunta: que responsabilidade temos todos quando colocamos uma criança dentro de um clube?

Os pais não precisam de ser treinadores. Não precisam de conhecer táticas, discutir convocatórias ou explicar ao árbitro como deveria ter decidido. Precisam de ser pais. Estar. Apoiar. Incentivar. Acompanhar. E, sobretudo, deixar os filhos desfrutar. Talvez uma das perguntas mais importantes depois de um jogo não seja «quanto ficou?», mas simplesmente: «Divertiste-te?»

Porque uma criança que começa a acreditar que o amor dos pais depende do resultado começa, pouco a pouco, a deixar de jogar para si e passa a jogar para corresponder às expectativas dos outros. E o desporto deixa de ser descoberta para se transformar em obrigação. É aqui que entram valores que parecem simples, mas que se tornaram extraordinariamente difíceis de praticar: respeito, lealdade e verdade.

Respeitar quando se ganha. Respeitar quando se perde. Reconhecer o mérito do adversário. Aceitar que o árbitro pode errar. Assumir os próprios erros.

Não procurar sempre um culpado.

Parece básico. E, no entanto, basta olhar para o desporto profissional, particularmente para o futebol, para perceber a dimensão da contradição. Queremos que as crianças respeitem os árbitros, mas mostramos-lhes adultos a pressioná-los. Queremos que saibam perder, mas ouvimo-los justificar todas as derrotas. Queremos que respeitem o adversário, mas assistimos a treinadores, dirigentes e outros agentes a transformar cada jogo numa batalha verbal. Queremos que sejam leais, mas ensinamo-las, demasiadas vezes, que a verdade é relativa quando está em causa uma vitória.

O desporto profissional, em particular o futebol, tem uma responsabilidade que não pode ser esquecida: é observado por quem ainda está a aprender. Cada declaração, cada gesto, cada conflito e cada exemplo chega às crianças através da televisão, das redes sociais ou das conversas em casa. Não podemos pedir aos jovens aquilo que os adultos não estão dispostos a cumprir.

Esta talvez seja uma das maiores fragilidades do nosso discurso sobre ética no desporto: falamos muito às crianças sobre valores e demasiado pouco aos adultos sobre o exemplo.
Porque as crianças não aprendem ética apenas quando lhes explicamos o que é certo. Aprendem-na, sobretudo, quando nos veem fazer. Por isso, o início de uma nova época pode ser também um momento para começarmos de novo.

Para os clubes, uma oportunidade de reafirmarem a sua dimensão educativa. Para os treinadores, a consciência de que cada treino é também uma aula de vida. Para os pais, a coragem de apoiar sem pressionar. Para os dirigentes, a responsabilidade de liderar pelo exemplo. E para todos nós, a obrigação de perceber que o resultado de um jogo termina quando o árbitro apita.
A formação de uma criança não. No fim da época, haverá campeões, medalhas, classificações e vencedores. Mas haverá também crianças que terão aprendido a respeitar, a cooperar, a lidar com a frustração, a reconhecer o mérito dos outros, a ganhar com humildade e a perder com dignidade.

E talvez seja esse o verdadeiro campeonato que todos deveríamos querer ganhar. Porque o maior resultado do desporto não aparece numa tabela classificativa. Fica numa pessoa.

Que seja, para todos, uma excelente época desportiva. Mas, acima de tudo, uma época de que possamos ter orgulho naquilo que ajudámos a formar.

Vitor Santos | Embaixador do PNED