OPINANDO: O jogador da terra
Há uma imagem que teima em desvanecer-se nos relvados modernos, a do miúdo que cresce a sonhar com a camisola do clube da sua cidade, que percorre todos os escalões da formação com o emblema cravado no peito e que, finalmente, chega à equipa principal para se tornar a extensão do adepto dentro de campo.
Esse jogador, o jogador da terra, da formação, da casa, tornou-se numa raridade.
Ele era a alma do Jogo e a Ligação com a Bancada, o futebol de antigamente respirava identidade.
O atleta criado no clube conhecia o peso histórico da camisola porque a vestia desde os dez anos, sabia o que significava um jogo, porque vivia na mesma rua que os adeptos.
Ele não era apenas um ativo financeiro ou um profissional de passagem, era a personificação da comunidade.
Quando marcava um golo, não festejava apenas para as câmaras, abraçava os vizinhos na bancada. Era o elo de ligação visceral entre a paixão de uma cidade e a ambição de uma instituição desportiva.
Sem o miúdo da formação para lembrar de onde vêm, os adeptos perdem o elo mais sagrado do futebol, a identificação pura. O relvado deixa de ser um palco de afectos locais para se tornar um aeroporto de passagem.
Por que Desapareceu o Jogador Local?
A extinção desta figura não aconteceu por acaso. Resulta de uma profunda mudança estrutural e económica no futebol contemporâneo, onde se destacam alguns fatores:
O futebol transformou-se numa indústria de consumo rápido. A pressão sobre treinadores e diretores não deixa margem para o erro ou para a paciência exigida na maturação de um jovem talento local.
Os clubes preferem importar promessas baratas de mercados periféricos ou apostar em estrangeiros com suposto maior potencial de mais valia financeira, ignorando o talento gerado à porta de casa.
Ao abdicar do jogador da terra, o futebol corre o risco de se tornar um espetáculo estéril, feito de mercenários sem raiz. Perde-se a mística, a mística da camisola suada por quem realmente compreende a alma do clube.
Será que ainda vamos a tempo de resgatar a paciência e a coragem necessárias para olhar para o talento local, ou continuaremos a importar o mundo enquanto ignoramos quem joga mesmo ao nosso lado?
Olhando para o nosso Académico, não se consegue identificar esse jovem, nascido e criado no clube, na cidade. Perde-se a mística e perde-se a identidade própria de um clube centenário.
O que falta ao Académico para ter jogadores formados no clube (não me refiro a jogadores que chegam já com a idade de junior ao clube e integram futuramente a equipa principal) mas sim a jogadores que nascem no clube desde a sua fase de iniciação, até assinarem como Profissionais.
Mau aproveitamento? Falta de qualidade de quem ensina? Falta de condições de treino? Falta de aposta no jovem jogador da formação por parte da Sad? Ou é mesmo incapacidade do jovem atleta de Viseu?
Uma coisa dá para perceber, as condições de treino não são as melhores, isso é notório, a vista de todos.
Deixo uma pergunta a vocês,
trocariam a Primeira liga por uma Academia Própria, para a formação ter espaços para fazer evoluir o jovem atleta?
Rui Lage
