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Diretor: Paulo Menano

OPINANDO: O amor na era do scroll é o mesmo de sempre?


Deambulando pelo bairro de Plaka, em Atenas, sob quarenta graus, uma humidade pegajosa e um ar quase irrespirável, encontrei lojas cheias de estatuetas e lembranças para todos os gostos. No meio de filósofos e deuses, destacava-se uma presença inevitável: Afrodite, a deusa do amor, muitas vezes associada à Vénus de Milo.

Foi ali que me lembrei de como os gregos pensavam o amor — e de como continuamos, sem o saber, a falar a mesma língua. Platão, no Fedro e no Banquete, via o amor como conflito entre razão e desejo: a alma é um cocheiro a conduzir dois cavalos, um obediente, outro indisciplinado. Amar não é suprimir o indisciplinado. É aprender a conduzi-lo.

No mito dos andróginos, contado por Aristófanes, os humanos eram originalmente completos, até os deuses os dividirem ao meio — e desde então cada metade procura a outra, nostalgia de uma unidade perdida. Mas Sócrates, inspirado por Diotima, eleva esta busca: o amor pode ser caminho de crescimento, da atração por um corpo até à contemplação da beleza eterna.

A tragédia Fedra mostra o reverso. A protagonista é dominada por uma paixão proibida pelo enteado, Hipólito — e o que a torna devastadora não é a ignorância, é a lucidez. "Sei o que é justo, mas não o sigo", confessa. É a frase mais perturbadora das três obras: desmonta a ilusão de que basta conhecer o bem para o seguir.

Esta tensão é perfeitamente atual. No século XXI tem nome próprio: economia do escândalo. Uma cultura que recompensa a intensidade do
momento mais do que a reflexão, o afeto transformado em conteúdo. Não é que o cavalo indisciplinado de Platão tenha ganhado força — é que construímos infraestruturas inteiras, algorítmicas e lucrativas, para o soltar da rédea. E na vida pública é a mesma dualidade: a paixão política mobiliza, mas sem medida degenera em fanatismo. Nesse ponto deixamos de estar com Platão. Estamos com Fedra, sabendo exatamente o que fazemos, e fazendo-o na mesma

O problema nunca esteve no amor. Está naquilo que fazemos com ele. Não podemos eliminar o desejo — podemos aprender a orientá-lo. Essa é a lição mais dura que os gregos nos deixaram: não que baste saber, mas que saber, por si só, não basta.

Ao olhar para as réplicas de Afrodite em cada montra de Plaka, percebi: não fomos nós que mudámos o amor. É o amor que continua, há milénios, a decidir-nos.

Carlos M.B. Geraldes PhD