OPINANDO: Ricos de Bolo-Rei, Pobres de Produtividade
Será Portugal um país rico?
Gostamos de pensar que sim. Temos sol, mar, vinho, gastronomia, bons médicos, bons engenheiros, bons cientistas e uma localização invejável. Temos ainda um talento singular: falar de nós como se fôssemos muito melhores do que os números permitem concluir. É, provavelmente, a nossa maior especialidade.
Eça percebeu-o há mais de cem anos. O português queirosiano fala muito, promete muito, critica muito e faz pouco, num país onde o fraseado substitui a obra e a aparência vale mais do que a realidade. Em “O Conde d’Abranhos” deixou-nos Alípio Abranhos, grande político de retórica oca e incompetência sucessiva, tratado por pascácio e incapaz de ser homem de Estado. Ainda hoje o encontramos em qualquer hemiciclo e em campanha eleitoral.
A prova é quase cómica: somos, por metro quadrado, dos países mais obcecados com recordes da treta. Já tivemos o maior bolo-rei, a maior sardinhada, o maior chouriço, o maior cozido, a maior bandeira, e só falta a maior tanga. Os telejornais abrem a celebrar cada um como se fosse ouro olímpico, batem-se palmas, tiram-se fotografias e, no dia seguinte, nada mudou, porque um recorde não paga uma casa nem financia um hospital. É um espelho: mostra-nos a fazer o que melhor sabemos, que é parecer em vez de ser. Talvez seja esse o nosso verdadeiro recorde: confundir aparato com valor.
Mudaram as roupas, os carros e as tecnologias, mas mantemos uma relação alucinada com a realidade: queremos salários, serviços públicos, estradas e hospitais europeus, sem a produtividade dos países europeus mais ricos. E há uma verdade que não gostamos de ouvir: Portugal não é um país rico. É um país europeu desenvolvido, com qualidade de vida superior à de boa parte do mundo, mas longe das economias mais ricas da Europa.
Se hoje temos estradas, escolas, hospitais e milhares de projectos que dificilmente teriam sido feitos só com recursos nacionais, devemo-lo em boa parte à União Europeia. Não há vergonha nisso. O problema começa quando confundimos receber dinheiro com criar riqueza. Durante décadas construímos, modernizámos, requalificámos e esbanjámos à toa, mas a pergunta continua sem resposta: transformámos esse dinheiro em riqueza permanente? Uma estrada faz-se uma vez; uma economia tem de funcionar todos os dias. Temos uma capacidade extraordinária para aproveitar recursos externos e pouca para criar riqueza cá dentro.
Veja-se a produtividade: trabalhamos muito e produzimos pouco por trabalhador.
Veja-se a emigração: formamos jovens para os exportar, precisamente aqueles que aumentariam a produtividade. Veja-se a habitação: jovens com formação e emprego que não compram nem arrendam casa sem hipotecar uma fatia absurda do rendimento. Veja-se a demografia: cada vez menos crianças, cada vez mais idosos. Veja-se a imigração. Precisamos dela, porque a demografia não deixa alternativa, mas construímos um sistema incapaz de a organizar: atrasamos autorizações durante anos e deixamos crescer, à margem da lei, um mercado de trabalho não regularizado. Toleramos na prática o que a lei proíbe e depois espantamo-nos quando a integração falha ou a opinião pública se radicaliza. O problema não é a imigração, que nenhum país envelhecido dispensa, mas a nossa incapacidade, mais uma vez, de fazer cumprir as regras que nós próprios escrevemos. Um Estado que não regula chega, pelo caminho inverso, ao mesmo lugar de um Estado sem regras.
Veja-se o interior: temos território, mas deixámos que envelhecesse e se desertificasse. Sem túneis que atravessem a Serra da Estrela e as serras do Chiqueiro, da Cebola e do Açor, o interior nunca romperá a prisão geográfica em que vive, e continuará a uma distância inaceitável do litoral. O que sobra serve de palco a ladainhas eleitorais, em bom estilo Abranhos: promete-se, anuncia-se, corta-se uma fita imaginária. O IC6 é o monumento nacional a essa arte: décadas de lábia, décadas de “desta vez é que é”, e o que nunca falta, para manter a tradição, são novos estudos.
E veja-se o Estado: fabricamos leis, programas e planos com esmero, e depois levamos uma eternidade a executá-los.
Resta o desenrascanço, que é virtude quando resolve um problema e fraqueza quando substitui a organização. Um país não pode depender eternamente de pessoas “extraordinárias” a remendar sistemas medíocres. Precisamos de menos heróis e de melhores sistemas: menos “depois vê-se”, menos “sempre foi assim”, mais planeamento, produtividade e continuidade.
Torga via um país pequeno e contraditório e escreveu, no “Diário IX”, que somos “uma coletividade pacífica de revoltados”: indignados o dia inteiro, sem que daí resulte coisa alguma. Ainda vivemos essa contradição: queremos ser modernos, mas resistimos à mudança; queremos salários elevados, mas não aumentamos a produtividade; queremos mão-de-obra estrangeira, mas não a conseguimos regular a tempo; queremos jovens, mas não lhes damos razões para ficar; queremos um Estado eficiente, mas multiplicamos regras.
Portugal aprendeu a consumir como país rico antes de aprender a produzir como país rico. A frase pode ser injusta, mas merece ser pensada, porque o nosso problema não é não termos nada. Temos território, mar, sol, conhecimento, gente talentosa, empresas excelentes e uma identidade própria. Falta-nos transformar tudo isso em produtividade, salários, inovação e riqueza sustentável.
Aqui está a lição dos fundos europeus: em vez de perguntar quanto ainda vamos receber, perguntemos o que fizemos com o que já recebemos. Os fundos não podem ser um suplemento eterno ao rendimento nacional; são uma alavanca, e uma alavanca serve para levantar alguma coisa. Se, depois de décadas, ainda precisamos deles para fazer o que outros fazem com a sua própria economia, talvez devêssemos olhar menos para o que chega de Bruxelas e mais para o que não conseguimos criar cá dentro.
Saramago lembraria, provavelmente, que o problema começa quando aceitamos como normal aquilo que devia incomodar-nos. E é isso que nos aconteceu: habituámo-nos aos salários baixos, à emigração, à burocracia, à lentidão da justiça, à casa impossível, ao interior deserto, à muleta dos fundos, à imigração que a nossa própria demografia tornou inevitável — e à ideia de que “Portugal é assim”.
Não tem de ser. Um país pequeno não está condenado à pobreza, nem a falta de recursos naturais impede a prosperidade. O que condena um país é não saber transformar o que possui em valor e não fazer cumprir, com firmeza e a tempo, as regras que ele próprio se dá. Portugal já provou que consegue fazer coisas; falta provar que as consegue fazer com consistência, durante muito tempo e à escala de todo o país.
Talvez o nosso maior problema não seja a falta de dinheiro, mas uma certa inércia mental: a velha mania de esperar pelo Estado, pela Europa, pelo próximo fundo, pelo próximo governo, como se alguém nos devesse o futuro. Não deve. O futuro de Portugal não virá de Bruxelas: a União Europeia pode ajudar e acelerar, mas a riqueza que sustenta um país cria-se todos os dias, pelos cidadãos e pelas empresas.
É tempo de deixarmos de perguntar quanto podemos receber e de começarmos a perguntar quanto somos capazes de criar. Essa é a pergunta que um país que quer deixar de ser pobre deveria, finalmente, fazer.
Carlos M.B. Geraldes, Ph.D.
Referências bibliográficas:
QUEIRÓS, Eça de – O Conde d'Abranhos e A Catástrofe. Porto: Porto Editora, 2010. Coleção Clássicos Porto Editora.
TORGA, Miguel – Diário: Volumes IX a XII. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2011.

