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Opinando: Jorge Sampaio e Simões, o caso-Bosman português

Advogado de profissão, Jorge Sampaio destacou-se como político tendo desempenhado, entre outros, os cargos de Presidente da Câmara Municipal de Lisboa e da República Portuguesa. Discreto, culto, humanista, um dos bons exemplos de como fazer política com elegância.

Curiosamente, Jorge Sampaio também esteve sob os holofotes do desporto e, em especial, do mundo do futebol. Na segunda metade da década de 60, o então jovem advogado de esquerda, defensor de vários presos políticos, foi contratado pela estrela emergente do Benfica António Simões que, após o 25 de abril de 1974, até viria a integrar as listas do CDS à Assembleia da República pelo círculo de Setúbal. A unir estas duas grandes figuras nacionais estava a luta pelo fim de uma Lei que conferia aos clubes de futebol o direito de decidir sobre o futuro dos seus atletas, mesmo quando estes terminavam contrato. De acordo com declarações do jogador ao Jornal I numa entrevista publicada a 25/04/2012, o Benfica impediu ao abrigo desta legislação que António Simões fosse ganhar, caso tivesse sido transferido para o Boca Juniors em 1967, 100 mil dólares por ano.

Esta causa perdida acabou por estar na origem da criação da Lei da Opção. Através desta regulamentação os clubes passaram a ser obrigados a igualar uma proposta que pudesse aparecer caso pretendessem manter os jogadores. Esta legislação apenas vigorava a nível nacional. Internacionalmente a grande mudança no paradigma laboral dos jogadores apenas ocorreu cerca de duas décadas depois, em meados da década de 90, com o caso-Bosman.

Este episódio acabou por marcar a história do futebol profissional e do movimento associativo dos jogadores uma vez que permitiu o desenvolvimento de uma verdadeira consciência de classe e esteve na origem do atual Sindicado de Jogadores.

Infelizmente Jorge Sampaio deixou-nos esta 6ª feira, a 10 de setembro de 2021.

 

Sérgio Mendes