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Diretor: Paulo Menano

Opinando: “Porque obedecer?” de Carlos M. B. Geraldes, docente

Porque obedecer?

“ A liberdade é a única coisa que os homens não desejam”
“ A primeira razão da servidão é o hábito”

Aquele que obedece é por excelência escravo, amo, incapaz de ser e de dispor de si próprio, um corpo sem vida, na dependência de outro.

É toda uma monstruosidade que se impõe a alguém que adora assumir-se no imediato como um zeloso funcionário a agir orgulhosamente como um autómato: ser autómato é destino! É aquela alma(zinha) que o Inquisidor de Sevilha – Irmãos Karamazov, – tanto adora porque não é um fardo, nem uma vertigem para o sistema, ele é o sistema, antes o alivia porque a sua obediência é uma virtude e um adorno para ser exibido em público para obter a certeza da salvação em terra incógnita!

Porque obedecer?

Porque existe uma cadeia de cumplicidades indiferentes aos bons princípios da humanidade e que, por natureza, são sempre um perigo para os regimes em que o principio do servilismo voluntário é lei. Daí que vivamos sob a alçada de toda uma administração acinzentada e dominadora porque o preço da desobediência é insustentável para o ideário de virtude e implantado pelo sistema, veja-se o que aconteceu ao Zelota (aquele que zela pelo nome de Deus) e que foi crucificado pelo simples facto de querer ser humano.

Como proceder de outro modo?

Há que aguardar silenciosamente as ordens, aguardar a hora certa, a guerra silenciosa, a obediência politica, a submissão às leis, o consentimento, a obediência cega, o respeito, a vontade dissimulada e sistemática em estado de submissão… obedecer porque se recebe ordens, reconhecimento do medo. Um dos piores inimigos do amor e da felicidade como bem-estar do corpo/espírito/mente exercer o papel de lacaio/sabujo que alimenta a vaidade de quem manda obedecendo a ponto de se autoentregar. Nada se sabe da finalidade do propósito, do fim, do sentido que é exigido a quem procede assim: é narcisismo social, sem imaginário e abdicando da responsabilidade de ser, é como se permitisse uma exploração ética do corpo e da mente segundo um vício aritmético.

“ A primeira razão da servidão é o hábito”

O medo, o ter medo a perder quando não tem força. O ser humano borra-se, assusta-se porque tem medo da sua responsabilidade.

Um ser social sem imaginário, obediente, infeliz, dócil e receoso assente numa ideia de estado protetor e repreendedor…, virtuoso, ansioso por conseguir um nada e que, nos limites, segue um mando que o atira sem pensar para um campo de batalha para morrer em prol da sua incapacidade de pensar e de escrutinar como um objeto que não pretende ser humano: o ser Deus, Deusa, rei, rainha, príncipe, princesa é o seu ideário de sucesso. Agora querer ser de facto humano é que não, que chatice! Porque quem manda fá-lo pela paixão de dominar, para que cuidem deles pelo mau orgulho e não com a bondade de cuidar humanamente do outro: “obedecer depressa, e bem, sem refletir”!

A inércia passiva, a razão de obediência, o hábito: Cada qual alinha como triunfo dos porcos de George Orwell o seu comportamento pelos outros…
Obedecemos por conformismo. Para isso, basta ver as experiências científicas desenvolvidas por Salomon Asch e pelo psicólogo Stanley Milgram porque a sociedade é um sistema de julgamentos, despojos padronizados, trajetos calculáveis, representações comuns, identidades atribuíveis, comprimidas cerebralmente, e normalizadas: “revoltados de monólogo interior”.

Têm como alvo privilegiado os costumes, as convenções, o conformismo generalizado. Passa a sua existência a ladrar contra a sua estupidez social!
A imensa fraude e o monumental logro é a sua distopia interna, modelos que podemos ler na eterna afirmação: «As vidas que levais são tal, que nada tendes de vosso.» em Étienne la Boétie, Discurso sobre a Servidão Voluntária, ou nos seguintes legados de Zamiatine, Nos, em Aldous Huxley, com Admirável Mundo Novo, ou em George Orwell, A quinta dos animais, ou em Philipe K. Dicke etc. O conformismo resulta da diminuição do mesmo, na mediania da vida, na mediocridade, na diluição da diferença assente num sedativo de consciência e no fazer de nós mais semelhantes aos outros.

A imaginação é aniquilada com as semelhanças e destrói a sensibilidade ao próximo, matando-o, assim como a compaixão e o sentimento de humanidade. É calculismo racional, frio, uma máquina assente na monstruosidade passiva que tem medo de desobedecer, basta-nos ler Hannah Arendt, Eichmann em Jerusalém e o conceito sobre a banalidade do mal ou refletir sobre o panfleto Discurso sobre a Servidão Voluntária, escrito em 1548, por Étienne la Boétie.

Há um debate ético que urge fazer! A espiral de obediência servil tem que ser posta em causa. Porque nos estamos a transformar em vilões, fanfarrões estúpidos, imbecis e incapazes de termos opiniões com mais de três palavras.

Carlos M. B. Geraldes (PhD)