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Diretor: Paulo Menano

OPINANDO: Temos maus governantes! (*)


E são eles, os menos competentes das suas gerações, que estão nos cargos públicos a definir o presente e o futuro do país. O problema não é novo, pois há anos que se faz de conta e se olha para o lado.

Quando se fala de avaliações, há sempre um conjunto de almas que nos vem explicar o quanto elas são inúteis e desnecessárias. Nesses casos, não há nada como esperar pelos resultados para tirar dúvidas. É que os resultados são como as imagens: valem mais do que mil palavras. O caso dos exames nacionais é, quanto a isso, exemplar.

Andou-se meses a preparar as provas – sem protestos, providências cautelares, conferências de imprensa ou grandes paragonas de jornal por parte dos contestatários do costume. O que se sabia? Que no ano passado já se tinha realizado uma experiência-piloto com os exames de Filosofia. Os principais problemas identificados não estiveram tanto no conteúdo da prova, mas sim no processo de correção digital. As situações reportadas já apontavam para respostas cortadas, incompletas ou trocadas devido à forma como a digitalização foi apresentada aos classificadores. Concluiu-se que o problema se centrou, sobretudo, na fiabilidade da plataforma utilizada.

Passado um ano, os mesmos problemas ganharam uma nova amplitude. Sim, a realidade impressiona. Mas, infelizmente, não surpreende. E qual foi a solução encontrada? A Deloitte foi chamada para prestar apoio técnico e monitorizar a operação de digitalização e classificação dos exames. Também foi anunciada uma auditoria, provavelmente a ser realizada por uma entidade privada próxima de um governante. E novidades?

Portugal tem maus políticos. E não é por acaso: é fácil tornar-se político. Por um lado, veja-se que, enquanto os cursos mais prestigiados mantêm notas de acesso ao ensino superior bastante elevadas e encaminham os seus melhores alunos para as grandes empresas multinacionais, para ingressar na carreira política basta efetuar a filiação num partido ou, para os mais jovens, numa juventude partidária. A alternativa passa por criar e manter uma boa rede de contactos com elementos que tenham efetuado o percurso assinalado. Se obtiver uma simples formação em Direito, Economia ou Ciência Política, o caminho fica mais facilitado para entrar na esfera da governação.

Ou seja, dito de forma clara: quem atualmente constrói uma carreira política não são os detentores de um percurso profissional de excelência. Quem hoje frequenta os corredores do Palácio e do Palacete de São Bento são, em geral, os que têm uma família política com fortes laços que, muitas vezes, se confunde com a de sangue. Por isso, obtêm mais apoios para as associações ou organizações sem fins lucrativos que fundam ou, noutros casos, para empresas de consultoria que criam. Muitas destas ajudas têm origem em autarquias da mesma cor política ou em empresas que ambicionam por um amanhecer com um sol verde, de esperança nos dividendos que possam surgir desta relação tão “desinteressadamente” estabelecida.

Assim, em termos gerais, quem quer ser governante são os profissionais mais fracos e com menos experiência de vida. Há exceções, e ainda bem. Há cargos exercidos por políticos competentes que, independentemente da idade que consta no seu CC, são dedicados e têm visão. Estes são aqueles que preferem o caminho da desmaterialização progressiva à digitalização atabalhoada. Sim, fazer exames num computador é bem diferente de burocratizar o processo, centralizando tudo num armazém em Lisboa. Mas o percurso comum da maioria dos políticos atuais é este. E são eles, os menos competentes das suas gerações, que estão nos cargos públicos a definir o presente e o futuro do país.

O problema não é novo, pois há anos que se faz de conta e se olha para o lado. Também não é por acaso: é sabido que o país vive bloqueado por corporações que lidam mal com o escrutínio público. Aliás, só aprovam os resultados eleitorais em que são todos vencedores, desde que o seu lugar esteja garantido.

Infelizmente, temos tolerado a ocultação dos verdadeiros responsáveis pelo atual estado do país. Pior: temos aceite a sua desresponsabilização e o passa-culpas. Dizer que um político errou é não estar recetivo à mudança ou, pior, é ter má-fé. É estar com os maus. É não “deixá-los trabalhar”.

Há, pois, perante tudo isto, uma pergunta fundamental que temos de nos colocar: que governantes queremos para o nosso país? Andamos sempre reativos, atrás da agenda mediática dos governantes e da sua alegada luta pelo país. Mas, da perspetiva dos cidadãos, os principais beneficiários da existência de bons governantes ou as principais vítimas dos maus, não há questão mais fundamental do que esta. Está, portanto, na altura de a colocar.

Adaptado do texto abaixo referenciado da autoria de Alexandre Homem Cristo, atual Secretário de Estado Adjunto e da Educação

Homem Cristo, A. (2014, agosto 11). Temos maus professores. Observador. https://observador.pt/opiniao/temos-maus-professores/

Sérgio Mendes