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Diretor: Paulo Menano

OPINANDO: Liberdade é de todos


Há cinquenta e dois anos, Portugal acordou diferente. O 25 de Abril não foi apenas o fim de uma ditadura. Foi a afirmação de um princípio que parecia simples e que, afinal, é dos mais difíceis de cumprir: o direito de todos a existir em liberdade, incluindo os que pensam de forma diferente de nós.

Cinquenta e dois anos depois, vale a pena perguntar: estamos a honrar esse princípio? A resposta obriga-nos a ser honestos sobre algo que muitos preferem ignorar.

Existe em Portugal, como em toda a Europa, uma preocupação legítima com o crescimento da extrema direita. Essa preocupação tem fundamento. Os sinais existem e merecem atenção. Mas há uma outra ameaça que se instala em silêncio, protegida pela conivência de quem prefere não a ver: a violência e a intolerância que vêm do outro extremo.

Em abril de 2026, durante a Marcha pela Vida em Lisboa, uma manifestação legal e pacífica de cidadãos que exerciam o seu direito constitucional de expressão, um indivíduo atirou um cocktail molotov sobre os participantes. Não foi uma metáfora. Foi um ato de violência real, dirigido contra pessoas cujas ideias o agressor não partilhava.

No mesmo mês, nas comemorações do 25 de Abril, a marcha organizada pela Iniciativa Liberal foi alvo de insultos e de tentativas de intimidação. Uma marcha. Numa data que existe precisamente para celebrar o direito de marchar.

Se estes atos tivessem sido praticados por militantes de extrema direita contra uma manifestação de esquerda, a indignação seria imediata, total e justificada. Mas quando os papéis se invertem, o silêncio instala-se com uma facilidade perturbadora. E esse silêncio é em si mesmo uma forma de cumplicidade.

A liberdade não funciona por exceção. Não é um privilégio reservado às causas de que gostamos, às ideias com que concordamos, às marchas que nos parecem simpáticas. A liberdade ou é universal ou é apenas poder disfarçado de princípio.

Os que atiram cocktails molotov contra manifestantes não são revolucionários. São o espelho daquilo que dizem combater. A violência política não tem ideologia redentora. Tem apenas violência.

O 25 de Abril não pertence à esquerda. Não pertence à direita. Não pertence a nenhum partido, a nenhuma fação, a nenhuma causa sectária. Pertence à ideia de que um povo tem o direito de se governar a si próprio, de falar, de discordar, de marchar, de votar, de existir sem medo. Quem usa essa data como bandeira para intimidar o adversário está a profaná-la, independentemente do lado onde se coloca.

Uma democracia saudável não é aquela em que apenas os nossos aliados têm voz. É aquela em que os nossos adversários também a têm, e onde a resposta às ideias que não partilhamos é o argumento, o debate, o voto, e nunca a intimidação nem a violência.

Se queremos ser fiéis ao espírito de abril, temos de ter a coragem de condenar o extremismo onde quer que ele apareça. Sem exceções confortáveis. Sem silêncios convenientes. Sem dois pesos e duas medidas.

Liberdade é de todos e para todos. Não há meio caminho.

Rui Abreu