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Diretor: Paulo Menano

OPINANDO: Queremos mesmo falar a sério sobre o Interior?


Há décadas que o Interior é tema de debates, estudos e estratégias. O diagnóstico é conhecido por todos, mas os problemas continuam praticamente os mesmos. A questão já não é perceber o que falta fazer. A questão é saber se existe verdadeira vontade política para inverter o rumo.

O despovoamento é apenas a consequência de um conjunto de falhas acumuladas. Os jovens saem porque não encontram emprego qualificado, habitação acessível ou perspetivas de carreira. As empresas enfrentam dificuldades em recrutar, custos de contexto mais elevados e uma burocracia que raramente distingue quem investe no Interior de quem investe junto aos grandes centros.

Ao mesmo tempo, assiste-se a uma degradação progressiva dos serviços públicos. O acesso à saúde torna-se mais difícil, faltam profissionais, encerram serviços, a justiça afasta-se das populações e os transportes públicos continuam insuficientes. Em muitos concelhos, viver sem automóvel é praticamente impossível.

Também as acessibilidades continuam a limitar a competitividade. Não basta construir estradas. É necessário investir na ferrovia, nas ligações digitais e em infraestruturas que permitam às empresas competir em igualdade de circunstâncias. Num mundo cada vez mais digital, ainda existem zonas onde a cobertura de comunicações continua longe do desejável.

A tudo isto junta-se uma preocupação crescente de muitas comunidades, o repovoamento não pode ser visto apenas como uma questão de números. O Interior precisa de pessoas, mas também de políticas que promovam uma integração efetiva, assente no respeito pelos valores, pelas regras e pela identidade das comunidades locais. A fixação de novos residentes deve privilegiar quem pretende trabalhar, empreender, constituir família e contribuir para o desenvolvimento destes territórios, evitando que o Interior seja encarado apenas como destino para respostas sociais sem uma verdadeira estratégia de integração e coesão.

Mas o maior erro é querer que o Interior seja uma cópia do litoral. Nunca será. E também não precisa de ser. O caminho passa por valorizar aquilo que o diferencia.

A agricultura é um exemplo claro. Em vez de competir na produção intensiva, onde dificilmente conseguirá acompanhar outras regiões ou países, o Interior deve afirmar-se pela agricultura biológica, pela produção sustentável, pelos produtos de excelência com denominação de origem e pela transformação local, criando valor acrescentado e melhores rendimentos para quem produz.

O mesmo acontece com o turismo. O futuro do Interior está no turismo de natureza, no enoturismo, no turismo cultural, gastronómico e de património, aproveitando as aldeias históricas, os parques naturais, os rios, a autenticidade das tradições e a qualidade de vida que estes territórios oferecem. Não faz sentido competir pelo turismo de massas quando a verdadeira riqueza está precisamente na autenticidade.

Há ainda oportunidades na fileira florestal sustentável, na valorização da biomassa, nas energias renováveis, na economia digital e no trabalho remoto. Hoje, muitas profissões já não dependem da localização geográfica. Com boas infraestruturas digitais e incentivos à fixação de pessoas e empresas, o Interior pode atrair novos residentes, empreendedores e talento qualificado.

Portugal não será um país mais desenvolvido enquanto continuar a desperdiçar o potencial de mais de metade do seu território. Falar do Interior é importante. Mas muito mais importante é deixar de o tratar como um problema e começar finalmente a vê-lo como uma oportunidade estratégica para o futuro do país.

Nuno Martins