OPINANDO: E se um dia não houvesse mordomos?
Chamam-se mordomos, festeiros, comissões de festas ou simplesmente voluntários. De norte a sul e nas ilhas, milhares de portugueses dão tempo, trabalho e muito de si para manter vivas as festas e tradições das suas terras. Talvez esteja na altura de lhes dizermos obrigado — e de percebermos que apoiá-los é também investir no território.
Há uns dias, em Almeida, uma situação deixou-me a pensar. Uma comissão de festas que começou com cerca de 30 pessoas foi, por diferentes razões, perdendo elementos até ficarem oito ou nove. As famílias juntaram-se, os amigos ajudaram e, com esforço, entrega e muita vontade, lá estão eles a fazer a festa.
A festa vai acontecer. E ainda bem.
Mas o episódio deixou-me uma pergunta que rapidamente percebi que não era de Almeida, nem sequer da Raia. É uma pergunta para Portugal inteiro: e se um dia não houvesse mordomos?
Chamamos-lhes nomes diferentes consoante a região. Mordomos, festeiros, comissões de festas, associações ou simplesmente voluntários. Encontramo-los no Minho, em Trás-os-Montes, nas Beiras, no Ribatejo, no Alentejo, no Algarve, nos Açores e na Madeira.
Mudam as tradições, os sotaques e os rituais. Num lugar há uma romaria, noutro uma procissão. Na minha Raia temos as capeias e os encerros. Noutros lugares existem arraiais, festas de santos populares e tradições com centenas de anos.
Mas existe algo comum a todas elas: há sempre alguém que tem de fazer acontecer.
Todos gostamos da festa. Gostamos das ruas cheias, da música, das mesas, das tradições, do reencontro com quem regressa à terra. Queremos um bom programa, bons artistas, boa organização e, naturalmente, queremos que tudo corra bem.
Mas raramente pensamos no que aconteceu durante os meses anteriores.
Ser mordomo não começa quando se acendem as luzes. Começa muito antes. É fazer contas, pedir orçamentos, procurar patrocínios, angariar dinheiro, tratar de licenças, contactar fornecedores, preparar espaços, garantir segurança e resolver dezenas de problemas que a maioria de nós nunca chegará sequer a conhecer.
Tudo isto é feito por pessoas que também têm empregos, empresas, famílias, filhos, preocupações e contas para pagar. O tempo que dão à comunidade é retirado ao seu próprio tempo.
E aqui faço uma confissão pessoal.
Tenho uma admiração enorme por estas pessoas.
Ao longo da minha vida aprendi a fazer muita coisa. Gosto de projetos, de criar, de juntar pessoas e de fazer acontecer. Mas reconheço que não sei se teria esta capacidade de resiliência, entrega, paciência, amor à terra e sacrifício pessoal que encontro em tantos mordomos.
É preciso uma fibra especial para passar meses a trabalhar para proporcionar alguns dias de alegria aos outros.
E é ainda mais extraordinário fazê-lo sabendo que, quando a festa começar, também começarão as opiniões.
O artista devia ser outro. A bebida está cara. O programa começou tarde. A música está alta. Na terra ao lado fizeram melhor. No ano passado estava mais gente.
Naturalmente, quem organiza pode errar e todas as festas podem melhorar. Mas talvez devêssemos distinguir a crítica construtiva da facilidade com que, por vezes, exigimos um serviço profissional a quem está a prestar um serviço voluntário à comunidade.
Por isso, antes da próxima crítica, talvez valha a pena fazermos algumas perguntas:
Eu ajudei? Eu contribuí? Quanto tempo dei à minha comunidade? Alguma vez perguntei aos mordomos se precisavam de alguma coisa? E quando foi a última vez que lhes agradeci?
São perguntas simples, mas talvez mudem a nossa perspetiva.
Porque estas pessoas não organizam apenas festas.
Ajudam a manter Portugal ligado às suas raízes.
Há milhares de portugueses que vivem longe das terras onde nasceram. Há emigrantes que marcam as férias para coincidir com a festa da aldeia. Há filhos e netos que regressam todos os anos e é nesses dias que voltam a encontrar primos, amigos e vizinhos.
Em muitas localidades, durante alguns dias as casas voltam a abrir, as ruas enchem-se e comunidades pequenas ganham uma vida completamente diferente.
As festas são momentos de encontro entre gerações e uma extraordinária forma de transmissão de identidade.
Uma criança pode não compreender hoje a importância daquela procissão, daquela romaria, daquela Capeia ou daquele ritual da sua aldeia. Mas ficará com a memória. E talvez daqui a 30 anos seja ela a explicar aos filhos porque regressa todos os anos à terra dos avós.
Existe também uma dimensão económica que não podemos ignorar. Restaurantes, cafés, alojamentos, comércio, músicos, empresas e fornecedores beneficiam desse movimento.
As festas populares são cultura, mas são também coesão social, economia local, turismo e desenvolvimento territorial.
Apoiar as festas é investir no território
É precisamente por isso que municípios e juntas de freguesia têm aqui também uma responsabilidade importante.
Quando uma autarquia apoia uma comissão de festas, uma associação ou uma tradição local, não está simplesmente a “dar dinheiro para uma festa”.
Está a investir na comunidade.
Está a ajudar a preservar património imaterial, a criar movimento económico, a atrair visitantes, a trazer pessoas de volta às suas terras e a fortalecer a ligação das novas gerações às suas origens.
Por isso, vejo com bons olhos que municípios e juntas invistam nestas festas e tradições, naturalmente com critérios, transparência e equilíbrio.
E esse apoio nem sequer tem de ser exclusivamente financeiro.
Pode passar pela logística, equipamentos, limpeza, segurança, transportes, cedência de espaços, apoio técnico ou ajuda na complexidade administrativa que hoje acompanha a organização de qualquer evento.
Porque há aqui uma contradição que devemos evitar: não podemos fazer grandes discursos sobre a importância das nossas tradições e depois deixar praticamente sozinhos os voluntários que as mantêm vivas.
Se reconhecemos que estas festas criam valor para o território, então devemos também reconhecer que quem as organiza presta um verdadeiro serviço à comunidade.
O investimento público deve ajudar a multiplicar o esforço voluntário, não substituí-lo. A força destas festas continuará sempre a estar nas pessoas e na comunidade.
Mas os mordomos precisam de sentir que não carregam tudo sozinhos às costas.
“Ninguém quer pegar na festa”
É por isso que me preocupa uma frase que se começa a ouvir em demasiadas terras:
“Ninguém quer pegar na festa.”
Não podemos assumir que haverá sempre alguém.
As pessoas cansam-se. Envelhecem. As famílias mudam. As gerações mais novas vivem muitas vezes longe. E as exigências burocráticas, financeiras, legais e de segurança são hoje muito diferentes das que existiam há algumas décadas.
Preservar as tradições não pode significar apenas exigir que meia dúzia de resistentes continue a carregar tudo.
Nem todos temos de ser mordomos.
Mas todos podemos ser parte da solução.
Uns podem dar algumas horas. Outros conseguem um contacto, um patrocínio ou um fornecedor. Outros ajudam a montar, a servir, a limpar ou a divulgar. Outros simplesmente participam, consomem e contribuem.
Talvez tenhamos de substituir uma frase muito comum.
Em vez de dizermos “eles estão a organizar a festa”, começarmos a dizer:
“Esta é a nossa festa.”
Porque a festa nunca foi verdadeiramente dos mordomos.
É da comunidade.
E há outra coisa que não podemos esquecer: nenhuma tradição sobrevive apenas porque é antiga ou porque está inscrita num qualquer inventário patrimonial.
As tradições sobrevivem porque existem pessoas disponíveis para as continuar.
É aí que está o verdadeiro património.
Não apenas na procissão, no arraial, na Capeia, no encerro, na música ou no ritual.
Está nas pessoas que, geração após geração, dizem:
“Este ano somos nós.”
Por isso, este artigo não é sobre Almeida. Almeida foi apenas o episódio que me fez pensar.
Este artigo é para os milhares de homens e mulheres que, por esse Portugal fora, continuam a dar tempo, trabalho, paciência e coração às suas terras.
Aos mordomos.
Aos festeiros.
Às comissões.
Às associações.
Aos voluntários.
Às famílias e aos amigos que aparecem quando faltam braços.
E também às juntas, municípios, empresas e instituições que percebem que ajudar estas pessoas é investir nas suas comunidades e não apenas patrocinar uma festa.
A todos aqueles que chegam antes de nós e ficam quando nós já fomos embora, a minha profunda admiração e o meu obrigado.
Porque talvez só percebêssemos verdadeiramente o seu valor no dia em que chegasse o verão, regressássemos à nossa terra e descobríssemos que ninguém tinha pegado na festa.
E é precisamente por isso que vale a pena deixar hoje a pergunta:
E se um dia não houvesse mordomos?
Espero que nunca tenhamos de descobrir a resposta.
Nuno Silva
