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Diretor: Paulo Menano

OPINANDO: Ítaca Ainda Existe


Há viagens que começam muito antes de embarcarmos.

Há lugares que se visitam. A Grécia, essa, visita-nos.

Escrevo estas linhas com o pensamento ancorado em Ítaca, diante do mesmo mar Jónico que inspirou Homero. Aqui, a paisagem não se limita a deslumbrar; obriga-nos a pensar. A Grécia não é apenas um território: é uma conversa ininterrupta com a História. Basta caminhar para sentir que Platão, Aristóteles, Tucídides, Diógenes, Isócrates, Péricles, Aspásia de Mileto ou Alexandre Magno continuam por perto, como se tivessem acabado de abandonar a ágora e aguardassem apenas que alguém retomasse o diálogo.

Mas é Homero quem verdadeiramente me fascina.

O meu primeiro encontro com a sua obra aconteceu nas aulas de História, pela voz inesquecível da professora Celene Gonçalves, antiga diretora do internato feminino do mítico Colégio Nuno Álvares, em Tomar. Foi uma das melhores professoras que tive na vida, durante os cinco anos em que fui seu aluno. Hoje já não está entre nós, mas permanece viva na memória de quem aprendeu com ela que os clássicos nunca pertencem apenas ao passado.

Pouco tempo depois, Homero entrou também na minha casa. Era o final da década de 1970 e, sentado em frente à televisão, ao lado dos meus pais, em Neuss, descobri Ulisses (1954). Kirk Douglas dava vida ao herói de Ítaca, Silvana Mangano interpretava Penélope e Circe, e Anthony Quinn encarnava Antínoo, o mais ambicioso dos pretendentes ao trono de Ítaca. Vieram depois outras adaptações, séries e filmes, mas nenhum conseguiu apagar a impressão que aquela primeira viagem deixou na imaginação de um rapaz que, sem o saber, começava a apaixonar-se pelos clássicos.

Mas foi A Ilíada que verdadeiramente se entranhou na minha vida. Durante anos, acompanhou-me quase como acompanhou Alexandre Magno que, segundo Plutarco, nunca prescindia de um exemplar da obra de Homero, anotado pelo seu mestre Aristóteles e guardado na célebre arca de Dario, um cofre persa capturado após a batalha de Isso e que o conquistador considerou digno de acolher o seu bem mais precioso. Também eu regressei inúmeras vezes àqueles versos, sobretudo enquanto preparava a minha dissertação de mestrado sobre a (des)estruturação do monoteísmo político divino em Étienne de La Boétie.

Havia um trecho ao qual voltava incessantemente. No Canto II (vv. 203-06), Ulisses proclama: «Não é bom que muitos mandem. Haja um só soberano, um só rei, a quem o filho de Cronos concedeu o cetro e a autoridade para decidir por todos.» Naqueles versos reconheci uma das mais antigas formulações da unidade do poder político. Foi esse fio que me conduziu, séculos depois, até La Boétie e à sua extraordinária crítica da servidão voluntária: se o poder tende a concentrar-se num só, porque aceitam tantos submeter-se à vontade de um único homem?

Com a Odisseia, a história foi diferente. Conhecia-a sobretudo através de traduções menos felizes e das adaptações do cinema clássico. Confesso que o anunciado filme de Christopher Nolan reacendeu a curiosidade. Mas foi a extraordinária tradução de Frederico Lourenço, publicada pela Quetzal, que me trouxe verdadeiramente de volta a Homero. Diante do busto do poeta, no Neues Museum, em Berlim, já intuía que esse reencontro era apenas uma questão de tempo.

E valeu cada página.

Mas a leitura, essa, não fica arrumada na estante da memória.

Os monstros mudaram de rosto

Há quase três mil anos, Homero escreveu a história de um homem que apenas queria regressar a casa. À primeira vista, é um poema sobre deuses, monstros e tempestades. Mas troquemos os navios pelos smartphones, os mares pelas redes sociais e os monstros pelas nossas obsessões: Ulisses nunca deixou de navegar entre nós.

A diferença é que, hoje, quase ninguém sabe qual é a sua Ítaca.

Vivemos a correr para o próximo emprego, para a próxima compra, para a próxima atualização do telemóvel. Parar parece um fracasso. Mas quem nunca decide para onde vai acaba sempre por chegar ao destino que os outros escolheram.

Os Lotófagos ofereciam um fruto que apagava a memória e o desejo de regressar. Hoje, o lótus chama-se notificações, vídeos infinitos e distração permanente. Nunca foi tão fácil esquecer o essencial.

Os Ciclopes viviam sem leis nem diálogo. Polifemo tinha apenas um olho. Talvez Homero já soubesse que quem vê apenas uma perspetiva acaba sempre por se tornar ciclope. O nosso tempo está cheio de gente que observa o mundo através de um único ecrã, de uma única ideologia ou de um único algoritmo. Escutar o outro tornou-se um exercício raro.

As Sereias já não cantam sobre os rochedos. Cantam na publicidade, nos discursos políticos e nos influenciadores que prometem felicidade em dez passos. Como Ulisses, também nós precisamos de aprender a ouvir sem nos deixarmos arrastar.

Circe continua a transformar pessoas em animais, sem recorrer a feitiços. Bastam a ambição sem limites, o culto da aparência e a necessidade incessante de aprovação.

E os Lestrigões também continuam entre nós. Já não são gigantes antropófagos, mas a violência verbal, a polarização e a incapacidade de aceitar quem pensa de forma diferente. Há palavras que ferem mais profundamente do que espadas.

Talvez também precisemos de reaprender com Penélope. Enquanto Ulisses enfrentava monstros e tempestades, ela resistia em silêncio, tecendo durante o dia e desfazendo o trabalho durante a noite. Num tempo obcecado pela velocidade e pelos resultados imediatos, lembrar-nos de que há esperas que também são uma forma de coragem talvez seja uma das maiores lições de Homero.

A maior diferença, porém, está na própria ideia de Ítaca. Para Ulisses, era um lugar concreto: família, memória e identidade. Hoje há quem saiba exatamente quanto ganha, quantos seguidores tem ou quantos quilómetros corre por semana, mas não consiga responder à pergunta mais simples: para onde quero realmente ir?

Sem Ítaca, qualquer vento parece favorável durante algum tempo. Mas acaba sempre por nos deixar à deriva.

É por isso que a Odisseia continua tão atual. Os maiores monstros não vivem em cavernas nem no fundo do mar. Vivem dentro de nós: a vaidade, a impaciência, o esquecimento, a cobiça e o medo.

Ulisses não regressa porque é o mais forte. Regressa porque nunca esquece quem é.

Talvez essa seja a grande lição do século XXI. Num mundo que todos os dias nos convida a ser outra pessoa, o verdadeiro heroísmo já não consiste em conquistar cidades nem em acumular riqueza. Consiste em chegar ao fim da viagem sem perder aquilo que nos torna humanos.

Ler Homero tem um sabor diferente. Não porque as pedras falem, mas porque nos recordam que as grandes perguntas permanecem intactas. Mudaram os navios, os mapas e os instrumentos. O que continua por resolver é o mesmo problema de Ulisses: encontrar o caminho de regresso a nós próprios.

Talvez seja essa a maior lição de Homero. Ulisses ensina-nos a regressar. Penélope ensina-nos a esperar. Entre a coragem de um e a fidelidade da outra continua escondido um dos segredos de permanecermos humanos.

Afinal, todos navegamos. Uns chegam depressa, outros demoram uma vida. Mas só regressa verdadeiramente quem, no meio das tempestades, nunca perde de vista a sua Ítaca. Porque a mais difícil de todas as viagens nunca foi atravessar o mar; foi regressar a si mesmo.

Carlos M. B. Geraldes

Para ler

– Odisseia, trad. Frederico Lourenço (Quetzal, edição revista e anotada, 2018) — a referência atual em português, com notas que ajudam mesmo quem nunca leu grego.
– Ilíada, trad. Frederico Lourenço (Cotovia/Quetzal)

Para ver
– Ulisses (1954), de Mario Camerini, com Kirk Douglas
– Troy (2004), de Wolfgang Petersen — mais Ilíada do que Odisseia, mas útil para quem quiser o contexto da guerra antes do regresso de Ulisses.
– A Odisseia (1997), minissérie com Armand Assante — fiel e acessível, boa porta de entrada para quem prefere televisão a cinema.
– The Odyssey, de Christopher Nolan. Nos cinemas.