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Diretor: Paulo Menano

OPINANDO: O lado humano dos incêndios


Portugal atravessa um período particularmente exigente no combate aos incêndios florestais. Em simultâneo, Espanha, França e outros países europeus enfrentam desafios semelhantes, demonstrando que este é um fenómeno que ultrapassa fronteiras e coloca à prova a capacidade de resposta dos sistemas de Proteção Civil. Quando um grande incêndio começa, as primeiras imagens mostram sempre as chamas. São elas que dominam os noticiários, ocupam as manchetes e despertam a preocupação de quem acompanha a atualidade. Mas há uma realidade que nenhuma câmara consegue captar por completo: o lado humano de quem, todos os dias, arrisca tudo para proteger os outros.

Por detrás de cada incêndio existem milhares de homens e mulheres que enfrentam temperaturas extremas, fumo intenso, terrenos difíceis e longas horas de trabalho. Bombeiros, sapadores florestais, elementos das forças de segurança, militares, técnicos de Proteção Civil, profissionais de saúde, pilotos, equipas de apoio logístico e tantos outros trabalham de forma coordenada para proteger vidas, bens e o nosso
património natural.

São dias que exigem muito mais do que resistência física. Exigem capacidade de decisão, espírito de equipa, equilíbrio emocional e uma disponibilidade permanente para enfrentar o inesperado. Muitos deixam temporariamente as suas famílias, interrompem o descanso e enfrentam situações de elevado risco, movidos por um profundo sentido de missão e de serviço à comunidade. Enquanto a maioria de nós
acompanha a evolução dos incêndios através da televisão ou do telemóvel, há quem permaneça no terreno durante horas consecutivas, tomando decisões em segundos e enfrentando uma realidade que poucos conhecem verdadeiramente.

Há um aspeto que raramente valorizamos. Quando um incêndio termina, regressamos às nossas rotinas. Para muitos operacionais, porém, o incêndio não termina quando as chamas se extinguem. Ficam o desgaste acumulado, as imagens difíceis de esquecer, a necessidade de recuperar física e emocionalmente e a preparação para responder novamente, porque sabem que a próxima ocorrência pode surgir a qualquer momento.

Importa, por isso, recordar que a resposta aos incêndios não depende apenas dos meios aéreos, dos veículos ou da tecnologia disponível. Por mais importantes que sejam esses recursos, o fator humano continua a ser o elemento decisivo em qualquer operação. São as pessoas que avaliam os riscos, coordenam meios, prestam socorro, apoiam as populações e permanecem no terreno muito para além do momento em que as câmaras de televisão deixam de transmitir. Os incêndios que têm marcado este verão voltam a evidenciar o enorme esforço exigido a todos os operacionais. Independentemente da função que desempenham, todos enfrentam uma enorme responsabilidade e uma pressão constante, sabendo que cada decisão pode fazer a diferença na proteção de vidas humanas.

Esta realidade recorda-nos também que os incêndios florestais são um desafio comum a vários países europeus. A cooperação internacional, a partilha de meios, de conhecimento técnico e de experiência operacional demonstram que, perante fenómenos desta dimensão, ninguém responde sozinho. Mas talvez a maior reflexão seja outra. Enquanto cidadãos, lembramo-nos destes homens e mulheres quando o fogo ameaça pessoas, habitações e florestas. Agradecemos o seu esforço, reconhecemos a sua coragem e acompanhamos o seu trabalho com admiração. Contudo, quando o verão termina, a atenção pública rapidamente se desloca para outros assuntos.

O reconhecimento, porém, não deve existir apenas nos dias mais difíceis. Deve refletir-se numa valorização permanente de todos aqueles que escolheram servir os outros, muitas vezes em circunstâncias extremamente exigentes e longe do olhar da maioria da população.As chamas acabarão por se extinguir. As manchetes serão substituídas por outras notícias. A atualidade seguirá o seu curso. Mas haverá sempre alguém que, ao ouvir uma sirene, deixará a sua família,interromperá o que está a fazer e responderá ao dever, sem saber quando regressará a casa.

Quando as chamas se apagam, termina o incêndio. Mas a dedicação de quem respondeu ao dever continua muito para além da última sirene. Porque, no fim de cada operação, aquilo que verdadeiramente permanece não são apenas os hectares poupados ou as chamas extintas. Permanecem o compromisso, a coragem e o espírito de missão de quem nunca hesita quando alguém precisa de ajuda.

Luís Miguel Martins
Técnico de Proteção Civil