OPINANDO: E neste exame a AD chumbou
Tenho 23 anos, sou professor de Geografia e continuo a ser estudante. Conheço, por isso, os dois lados da sala de aula: o de quem avalia e o de quem sabe que uma classificação pode influenciar seriamente o seu futuro.
É a partir dessa experiência que afirmo, que o sucedido com os exames nacionais de 2026 não pode ser reduzido a uma simples falha informática. Foi uma falha de preparação, de organização e, acima de tudo, de responsabilidade política.
John Dewey, nos primórdios do currículo escolar moderno, defendia que a educação é uma dimensão essencial da vida democrática. A escola não serve apenas para transmitir conhecimentos: deve formar cidadãos capazes de confiar nas instituições, participar na sociedade e exercer plenamente os seus direitos.
Não faltaram oportunidades para preparar a mudança. Houve provas ModA, experiências de avaliação digital e documentação de apoio. Existiram condições para testar procedimentos, identificar fragilidades, ouvir os professores e preparar mecanismos de contingência.
Ainda assim, quando chegou o momento decisivo, o sistema falhou…
Aos alunos exigiu-se estudo, pontualidade e preparação, aos professores exigiuse adaptação, disponibilidade e rigor. Às escolas exigiu-se capacidade para responder às dificuldades.
Ao Governo cabia garantir que tudo funcionava. No início de julho, o calendário dos exames teve de ser alterado. O período de classificação foi prolongado, a publicação das pautas foi adiada por vários dias e o início da segunda fase passou para 21 de julho. Quando começaram as candidaturas ao ensino superior, ainda existiam jovens sem saber se a nota que tinham recebido era definitiva.
Esta sequência não descreve constrangimento tecnológico, descreve um processo que não foi devidamente preparado.
Não se cria uma época extraordinária quando tudo correu normalmente. Não se alteram milhares de notas quando o sistema funcionou com o rigor prometido. E não se pode acusar de alarmismo quem alertou para problemas que os próprios acontecimentos vieram confirmar.
Sou favorável à modernização da escola pública. A tecnologia pode melhorar os processos de avaliação, reduzir custos e facilitar o trabalho das escolas, mas digitalizar não é, por si só, modernizar. Modernizar exige testar, avaliar, formar, acompanhar e corrigir antes de generalizar, aquilo que aconteceu foi o contrário: avançou-se primeiro e resolveram-se os problemas depois, quando já estavam em causa as notas e o futuro dos alunos. Um jovem não deve passar dias sem saber se a sua classificação está correta, não deve ter de decidir se realiza a segunda fase sem possuir toda a informação necessária, não deve ver meses ou anos de trabalho colocados em causa por uma falha de digitalização ou por uma decisão administrativa mal preparada.
Aos 17 ou 18 anos, um exame nacional já representa pressão suficiente. O Estado deve oferecer segurança e confiança. Não deve acrescentar ansiedade a um momento que já é, por natureza, exigente.
Enquanto aluno, sei que uma nota nunca é apenas um número. Pode determinar a entrada num curso, o acesso a uma universidade, a obtenção de uma bolsa ou a concretização de um projeto pessoal. Enquanto professor, sei também que avaliar é assumir um compromisso de justiça. Os critérios devem ser claros, as classificações devem ser rigorosas e os alunos devem poder confiar no resultado que lhes é apresentado. É por isso que considero igualmente injusto aquilo que foi exigido à classe docente, mais uma vez, foram os professores e as escolas chamados a reparar problemas que não criaram. Foram eles que tiveram de trabalhar sob pressão, identificar erros, esclarecer alunos, responder às famílias e adaptar-se a orientações sucessivas. Os professores não podem continuar a ser utilizados como equipas de emergência de políticas educativas mal preparadas.
Não basta elogiá-los depois de resolverem os problemas. É necessário ouvi-los antes de tomar decisões.
Paulo Freire defendia uma educação assente no diálogo, na participação e no respeito pelos sujeitos do processo educativo. Neste caso, alunos, professores e escolas foram tratados como destinatários de decisões tomadas de cima para baixo, sem verdadeira participação na construção do processo. A diferença de exigência é evidente. quando um aluno erra, o erro reflete-se na sua classificação. Quando um professor erra, tem de justificar e corrigir. Quando o Governo falha, surgem comunicados, alterações de calendário, auditorias e promessas de que ninguém será prejudicado.
Mas corrigir uma nota errada é uma obrigação. Não é uma vitória política!
Também não podemos ignorar que estas falhas não atingem todos os jovens da mesma forma. No interior, uma alteração de data pode implicar novas deslocações, dificuldades de transporte, custos adicionais e uma reorganização significativa da vida familiar. Quem dispõe de mais recursos encontra mais facilmente apoio, alternativas e respostas. Quem depende exclusivamente da escola pública fica mais exposto às falhas do próprio Estado.
A escola pública deveria reduzir desigualdades. Nunca as agravar!
Por isso, o Governo deve explicar que testes realizou, que alertas recebeu, por que razão avançou com a generalização do sistema e por que motivo os mecanismos de contingência se revelaram insuficientes.
As conclusões das auditorias devem ser divulgadas e as responsabilidades devem ser claramente identificadas. Responsabilidade política não é apenas afirmar que se assume a responsabilidade, é explicar decisões, reparar consequências e retirar conclusões.
Dewey mostrou-nos que a qualidade da democracia está profundamente ligada à qualidade da educação. Freire ensinou-nos que educar implica respeito, diálogo e dignidade. Neste processo, o Governo pediu confiança sem demonstrar a competência necessária. Exigiu serenidade enquanto alterava calendários e colocou alunos, professores e escolas a suportar as consequências de decisões mal preparadas.
Os alunos já fizeram o seu exame.
E, neste exame, a AD chumbou.
Hugo Abreu
