OPINANDO: Oráculo de Delfos e Fátima: caminhar até à resposta
Há perguntas que hoje fazemos em meio segundo. No século IV a.C., a mesma pergunta exigia dias de viagem até Delfos, o santuário onde os gregos e o mundo conhecido acreditavam que Apolo falava através de uma sacerdotisa, a Pítia, para responder a reis e a homens comuns.
O peregrino desembarcava em Kirra, atravessava a pé a região onde hoje se espraia o imenso olival de Anfissa e subia as encostas do Parnaso até à Via Sagrada. Só depois perguntava.
A distância não era um defeito do sistema. Era o sistema. Esse olival, um dos mais antigos da Grécia, ainda hoje se estende aos pés do sítio arqueológico — Património Mundial da UNESCO desde 1987 — protegido tal como as ruínas. Uma paisagem que sobrevive porque gerações a cultivaram, como sobrevivem entre nós os olivais centenários das regiões do Alentejo, Santarém, Castelo Branco e Guarda: só duram porque alguém, antes de nós, cuidou deles para além da própria vida.
Visitei Delfos este mês de agosto. Não foi só a paisagem que me tocou — foi a sensação, em silêncio, de já ali ter estado. Não sei o que fazer com isso, a não ser registá-lo.
Foi ali que ficou gravada a inscrição gnóthi seautón: conhece-te a ti mesmo. Talvez não seja acaso que um lugar feito para responder às perguntas dos homens começasse por lhes lembrar que a primeira pergunta deveria ser sobre eles próprios.
Mas o verdadeiro assunto é o caminho.
O peregrino que subia ao oráculo não era o mesmo que tinha partido. O cansaço, o pó da estrada, o silêncio e a expectativa produziam uma
transformação que nenhuma resposta da Pítia substituía. Não se chegava a Delfos. Merecia-se Delfos. Isto qualquer português entende melhor através de Fátima. Hoje chega-se de automóvel, estaciona-se, entra-se no recinto, negoceia-se e regressa-se a casahoras depois. Não há pitonisa, nem se pretende que haja. Mas há o mesmo princípio: a peregrinação como forma de merecer aquilo que se procura.
Ainda hoje, milhares caminham até Fátima — a pé, alguns de joelhos os últimos metros, outros carregando uma vela do tamanho do próprio corpo. Em Delfos subia-se para perguntar; em Fátima caminha-se sobretudo para agradecer, pedir e negociar. Um era consulta, o outro é súplica. Mas em ambos ninguém exige que o caminho seja fácil — pelo contrário, quanto mais custa, mais vale.
É isso que temos em comum com os antigos: a distância entre a partida e o destino não é tempo perdido. É transformação.
E é isso que o mundo digital nos está a roubar. Hoje carregamos no bolso um pequeno oráculo. Perguntamos e a máquina responde antes de a pergunta se formar por completo. Não há Anfissa para atravessar nem estrada de Fátima para percorrer. Há um ecrã e uma resposta
em milissegundos.
O mais grave não é a rapidez. É termos deixado de a ver como perda — e passado a vê-la como vitória.
Não estou contra a tecnologia, nem contra a inteligência artificial. O problema começa quando confundimos ter uma resposta com compreender alguma coisa.
Já no século XVI, La Boétie percebera que a servidão nem sempre é imposta pela força — pode nascer da conveniência. Aceitamos o que nos facilita a vida e, aos poucos, deixamos de exercer a liberdade que exigia esforço. Ninguém nos obriga a preferir a resposta instantânea à procura; somos nós que a escolhemos, confundindo facilidade com liberdade.
A verdadeira liberdade — a que chamo, no meu trabalho, Ontocracia — não é a ausência de obstáculos, mas a capacidade de os atravessar
conscientemente e, nesse percurso, descobrir quem somos. O oráculo digital dá-nos a resposta. Mas pode estar a roubar-nos a viagem que nos tornaria capazes de a compreender.
Por isso ainda fazem sentido as peregrinações — a Delfos antiga, a Fátima contemporânea, um livro lido inteiro, uma pergunta que fica connosco uma noite sem resposta. Não precisamos de abandonar a tecnologia. Precisamos só de recuperar, de vez em quando, a distância entre a pergunta e a resposta: ler antes de pedir o resumo, pensar antes de perguntar, caminhar antes de chegar.
A Pítia respondia muitas vezes em enigma. Talvez essa fosse a sua última lição: algumas respostas precisam de ser conquistadas. As que nos são entregues sem esforço entram pelos olhos e saem pela memória; as outras só se compreendem depois de percorridas.
Delfos ensinava isso pela subida. Fátima continua a ensiná-lo pelo caminho. E o olival de Amfissa — como os olivais e pinhais que ladeiam os caminhos de Fátima — lembra-nos que há coisas que só permanecem porque alguém, antes de nós, teve o cuidado de as cultivar.
Uma resposta transmite-se num segundo. Uma compreensão precisa de tempo.
Delfos exigia uma subida. Fátima exige, para muitos, uma peregrinação. Talvez o nosso tempo precise, mais do que nunca, de voltar a aprender isto: há respostas que só aparecem quando deixamos de procurar atalhos.
Carlos M. B. Geraldes, PhD
