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OPINANDO: O insulto não substitui a reforma


Chamar “fascista” a um eleitor do Chega raramente o faz mudar de voto. Pode até confirmar-lhe aquilo que o levou a votar assim: a sensação de que ninguém o ouve. O chamado “efeito backfire”, identificado por Nyhan e Reifler em 2010, mostra que confrontar alguém com factos que contradizem convicções enraizadas pode reforçá-las — embora um estudo posterior de Wood e Porter (2018) mostre que o efeito não é universal. Ainda assim, há evidência consistente de que atitudes populistas aumentam a polarização afetiva. Um estudo do Instituto Politécnico de Coimbra mostra que indivíduos jovens primeiros-votantes com atitudes populistas têm 27% mais probabilidade de exibir hostilidade emocional face a quem pensa diferente. Cada insulto genérico a “quem vota no Chega” tende a aprofundar a divisão em vez de a resolver.

O problema é que esta rotulagem substitui, com demasiada frequência, o debate sobre aquilo que realmente empurra os portugueses para o voto de protesto: a incapacidade do Estado em cumprir as funções mais básicas que lhe justificam a existência.

Comecemos pela justiça. Segundo a Comissão Europeia para a Eficiência da Justiça, um processo administrativo demora em Portugal, em média, 792 dias em primeira instância — quase o dobro da média europeia (400 dias), só superado por Malta e Chipre. Nos tribunais judiciais, uma execução cível demora em média 60 meses; em Santarém, 77 meses. Uma execução laboral demora, em média nacional, 53 meses, mas em Viseu pode chegar aos 161 meses, mais de 13 anos. E nos tribunais administrativos, uma categoria residual de processos, classificada apenas como “outras ações”, arrasta-se por 247 meses. Um cidadão que espera duas décadas por uma decisão judicial não precisa de ler um manifesto de extrema-direita para concluir que o sistema falhou com ele. Basta olhar para o calendário.

Passemos à saúde. No final de 2025, havia 1.088.656 pessoas em lista de espera para consulta no Serviço Nacional de Saúde, mais 13,8% num só ano, e 264.615 à espera de cirurgia, das quais 31% já tinham ultrapassado os tempos máximos garantidos por lei. Mais de 1,5 milhão de portugueses — exatamente 1.563.710 — terminaram 2025 sem médico de família. É a experiência quotidiana de milhões de eleitores que sentem, com razão, que o Estado lhes deve algo e não entrega. Quando esse abandono não é tratado com políticas concretas, é tratado por quem promete simplificações fáceis — e ninguém faz isso melhor do que a extrema-direita.

E depois há a educação, onde a relação com o voto no Chega está bem documentada. Uma análise do cientista político Pedro Magalhães sobre as bases sociais do sistema partidário português mostra que o Chega se tem aproximado do PS precisamente entre eleitores com qualificações inferiores ao ensino secundário, preferência que diminui à medida que sobe a escolaridade. Não se trata de acusar os menos escolarizados de irracionalidade; trata-se de reconhecer que um ensino subfinanciado e desigual deixa menos ferramentas para questionar discursos simplificadores, sejam eles de que quadrante forem.

A conclusão incomoda os dois lados do debate. Para quem se opõe ao Chega, insultar o eleitorado é abdicação da tarefa mais urgente: corrigir as falhas reais do Estado. Para quem vota no Chega à espera de que Ventura as resolva, convém recordar que discursos inflamados sobre imigração não reduzem uma lista de espera cirúrgica nem aceleram um processo em tribunal. A justiça célere, a saúde de qualidade e a educação eficaz não são luxos ideológicos de nenhum quadrante político. São a infraestrutura mínima sem a qual qualquer democracia perde a confiança dos seus cidadãos — e é precisamente nesse vazio de confiança que o populismo, de qualquer cor, sempre floresceu melhor.

Hugo Andrade

Fontes de informação consultadas:

CNN Portugal: https://cnnportugal.iol.pt/justica/decada/ha-tribunais-em-portugal-ondeos-processos-se-arrastam-mais-de-20anos/20230123/63c16a650cf28f3e15c72b20

Health News: https://healthnews.pt/2026/02/11/401866/

Instituto Mais Liberdade: https://maisliberdade.pt/maisfactos/tempo-medio-de-resolucao-dosprocessos-administrativos-na-uniao-europeia/

Instituto Politécnico de Coimbra: https://www.esec.pt/noticias/estudo-desenvolvido-na-esec-revela-redessociais-e-populismo-amplificam-a-polarizacao-entre-os-jovens-eleitores/

Pedro Magalhães: https://www.pedro-magalhaes.org/as-bases-sociais-do-novo-sistemapartidario-portugues-2022-2025/

Springer Nature (The Elusive Backfire Effect: Mass Attitudes’ Steadfast Factual Adherence): https://link.springer.com/content/pdf/10.1007/s11109-018-9443-y.pdf

Springer Nature (When Corrections Fail: The Persistence of Political Misperceptions): https://link.springer.com/article/10.1007/s11109-010-9112-2