OPINANDO: O Poder Muda, o Parasita Fica
A palavra “parasita” é hoje usada como insulto imediato. Sugere dependência, oportunismo, ausência de contributo. No entanto, a sua origem é mais subtil — e talvez mais reveladora do que pensamos. Vinda do grego parasitos, “aquele que come ao lado de”, a figura evoluiu, através da comédia antiga, para representar o indivíduo que vive à custa de outros, sobrevivendo pela bajulação e pela proximidade ao poder.
Nas peças de Aristófanes, e mais tarde nas comédias romanas de Plauto e Terêncio, o parasitus ganha forma: é o homem que elogia para comer, que exagera para agradar, que molda o discurso conforme o interesse. Ridículo, sim, mas também inquietantemente reconhecível.
Seria tentador relegar esta figura para o domínio do passado. No entanto, basta olhar com atenção para a vida política e social do século XXI para perceber que o parasitus não desapareceu. Adaptou-se.
Hoje, já não se senta apenas à mesa física dos poderosos. Move-se nos bastidores das decisões, nos circuitos de influência, nos espaços mediáticos. Não pede diretamente alimento — procura visibilidade, acesso, proximidade. E, tal como na Antiguidade, domina uma arte essencial: a da concordância estratégica.
No universo do arrivismo político e social, o parasitus moderno manifesta-se na figura do seguidor acrítico, do comentador que ajusta a opinião ao vento dominante, do agente que confunde lealdade com submissão. Não se trata apenas de indivíduos, mas de uma cultura que valoriza a proximidade ao poder mais do que a independência de pensamento.
Também na esfera social, amplificada pelas plataformas digitais, esta lógica se intensifica. A necessidade de aprovação — de likes, de validação — cria incentivos para a reprodução acrítica de discursos populares. O elogio fácil substitui o pensamento crítico; a visibilidade torna-se moeda de troca. A bajulação, que antes garantia um lugar à mesa, hoje garante um lugar no algoritmo.
Importa sublinhar: o problema não está apenas em quem desempenha o papel de parasitus, mas nas estruturas que o tornam possível — e até desejável. Tal como nas comédias antigas, esta figura existe porque há poder concentrado, recursos distribuídos de forma desigual e recompensas para quem se aproxima sem questionar.
A crítica implícita nestas personagens clássicas mantém-se atual: uma sociedade que recompensa a dependência e penaliza a franqueza arrisca-se a perder a sua capacidade de se corrigir. Quando o acesso ao poder depende mais da capacidade de agradar do que da capacidade de pensar e agir, o debate empobrece e a decisão degrada-se.
No contexto português — como em muitos outros — esta reflexão não é abstrata. A proximidade entre política, media e influência económica levanta questões legítimas sobre independência e transparência. Não se trata de acusar indiscriminadamente, mas de reconhecer padrões: onde há incentivos para agradar, haverá sempre quem o faça de forma sistemática.
A comédia antiga fazia rir, mas também alertava. O parasitus era motivo de riso porque era excessivo — mas o exagero revelava uma verdade desconfortável. Hoje, talvez já não ríamos tanto. Talvez porque a caricatura se aproximou demasiado da realidade.
Num tempo em que tanto se fala de autenticidade, talvez valha a pena recuperar a lição implícita nestas figuras: a proximidade ao poder não deve substituir a integridade. E a crítica — mesmo incómoda — continua a ser mais necessária do que o aplauso fácil.
Porque, no fim, a questão permanece: quem está à mesa do poder — e a que preço?
Carlos M. B. Geraldes, Ph.D.
Para quem queira aprofundar:
Aristófanes – Comédias – Vol. I e Vol. II, tradução e notas de Maria de Fátima de Sousa e Silva e Carlos Martins de Jesus, Coleção Biblioteca de Autores Clássicos, Imprensa Nacional
Plauto – Comédias – Vol. I e Vol . II, Introdução, tradução e notas de Carlos Alberto Louro Fonseca, Aires Pereira do Couto, Walter de Medeiros, Cláudia Teixeira e Helena Costa Toipa, Coleção Biblioteca de Autores Clássicos, Imprensa Nacional
Terêncio – Comédias – Vol. I e Vol. II, Introdução, tradução do latim e notas de Walter de Medeiros e Aires Pereira do Couto, Coleção Biblioteca de Autores Clássicos, Imprensa Nacional
