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Diretor: Paulo Menano

OPINANDO: Reinventar pode ser “Jolie”


Confesso que, desde tenra idade, o fascínio pela fronteira que separava dois países me seduzia.

Do lado de cá, sempre se sentiu, penso eu, o chamamento que o país irmão exercia. Pela língua, pelos costumes ou apenas pelos “caramelos” que aportavam e motivavam uma peregrinação de caráter internacional.

A fronteira foi, e é, território de lágrimas: de quem as sabe chorar na pele, mas também de quem as sabe chorar de tanto rir.

Foi o contrabando, foram as passagens a salto, foram os mil e um desafios pelos quais este território e as suas gentes passaram — e ainda passam.

São gentes de pulso firme, combatentes, com histórias para contar e uma enorme capacidade de resiliência. Muita resiliência. Foram as gentes de ontem, com um profundo sentido de pertença, que fizeram com que hoje outras gerações se encham de orgulho pela terra que é delas e de todos nós.

E, se dúvidas houvesse, bastaria ver e apreciar aquilo que são as grandes festas de Vilar Formoso, por alturas de agosto, com a sua população a demonstrar, orgulhosamente, de que casta é feita e a afirmar, sistematicamente, que não se dá por vencida.

Vilar Formoso e outras terras deste Interior, apesar da segregação sistemática por parte da corte sediada em Lisboa, têm conseguido manter-se firmes, apesar do constante despovoamento e das crescentes dificuldades.

Não entendo esta faixa da Raia, entre os concelhos de Almeida e do Sabugal, como terra de gentes de ténue feitura. Aliás, também não vejo, do lado de Espanha, ninguém disposto a desistir.

Com pergaminhos históricos evidentes e indiscutíveis, esta faixa dos territórios português e espanhol mantém também a esperança, ainda que por vezes pálida, de que algo possa mudar. Quero muito acreditar que assim seja.

Hoje, mais do que nunca, várias questões devem surgir em tom de desafio: Quem fomos? Quem seremos?

Fomos defensores do território e portugueses com orgulho, e creio que assim continuaremos a ser. Mas e o futuro? O que seremos no futuro?
Na minha humilde opinião: Ibéricos. Sim, ibéricos.

A Ibéria tem de vir a ser, ainda que paulatinamente, também motivo de orgulho para cada português e cada espanhol. Em conjunto, os dois países representam um mercado de cerca de 60 milhões de habitantes, possuem uma extensa faixa atlântica e mediterrânica, importantes portos comerciais, aeroportos internacionais, redes ferroviárias, uma produção crescente de energias renováveis, uma capacidade turística mundialmente reconhecida e relações históricas privilegiadas com a América Latina, África e outros territórios de língua portuguesa e espanhola.

Por estas evidências e por tantas outras, tenho todo o gosto em dizer, com a mão no peito: sou Ibérico.

Vilar Formoso, a “Capital do Mundo”, foi, em determinada época, digna dessa designação, em função de uma economia estável, assente nos serviços aduaneiros e em toda a atividade económica que daí resultava, nomeadamente o comércio, a hotelaria e a restauração.

Hoje já não é assim… Mas…

Haja coragem, união ibérica e vontade de lutarmos lado a lado, de mãos dadas, por um futuro que possa dignificar e dar esperança a quem, por aqui, resilientemente vai ficando.

Lute-se por transformar o eixo Vilar Formoso–Fuentes de Oñoro–Ciudad Rodrigo numa zona franca transfronteiriça capaz de gerar valor, sobretudo se for pensada como plataforma aduaneira, logística, de indústria ligeira e de serviços de apoio ao comércio internacional.

Vilar Formoso tem cerca de 1.791 habitantes num total de 5600 pessoas relativos ao concelho de Almeida, segundo os Censos de 2021, e Ciudad Rodrigo cerca de 11 a 12 mil habitantes, de acordo com dados recentes. Só pela a analise destes dados identificamos muito bem o caminho a seguir.

Uma zona franca bem dimensionada poderia criar emprego direto nas áreas da logística, segurança, manutenção, transformação industrial, serviços administrativos, restauração e alojamento.

O impacto seria especialmente relevante por se tratar de um território de baixa densidade populacional e sujeito a um persistente risco de despovoamento.

Medidas como taxas nulas ou reduzidas, incentivos à instalação de empresas e famílias, ou a redução dos custos da energia seriam apenas alguns exemplos do que se poderia e deveria fazer neste território ibérico, quer para atrair nova população, quer para travar o despovoamento.

O objetivo estratégico deveria ser claro: Transformar uma das regiões mais periféricas de Portugal e Espanha numa das regiões mais centrais da nova economia ibérica.

A Zona Franca Vilar Formoso–Ciudad Rodrigo poderia ser o primeiro passo de uma estratégia mais ampla. Uma estratégia baseada na ideia de que o futuro económico da Península Ibérica dependerá cada vez mais da capacidade de Portugal e Espanha trabalharem em conjunto.

A fronteira que, durante séculos, separou os dois países pode tornar-se um dos principais espaços de cooperação, investimento e desenvolvimento económico da Península.

Neste contexto, Vilar Formoso e Ciudad Rodrigo possuem condições para se apresentarem como uma verdadeira Porta da Europa e Capital da Cooperação Económica Ibérica.

Haja vontade! Por um futuro formoso, ou como quem diz: jolie!!

Filipe André