Mais Beiras Informação

Diretor: Paulo Menano

OPINANDO: Viseu e Guarda – Dois caminhos opostos no interior


Viseu e Guarda têm seguido caminhos muito diferentes no interior português. Numa região marcada por desafios semelhantes de interioridade, Viseu tem reforçado a sua ligação aos mercados externos, enquanto a Guarda continua a perder população e a enfrentar sinais claros de fragilidade territorial.

A Comunidade Intermunicipal de Viseu Dão Lafões confirma que, em 2024, as exportações da região atingiram 1 550 416 304 euros. O dado ajuda a explicar por que razão o território é hoje visto como um dos casos mais dinâmicos do interior do país. A própria CIM descreve a região como vocacionada para exportar, o que reforça a leitura de uma economia mais aberta e competitiva.

Na Guarda, a realidade é bem diferente. Segundo os dados dos Censos 2021 do INE, o distrito perdeu cerca de 17.965 habitantes em dez anos, uma quebra próxima dos 11,1% face a 2011. Em termos simples, trata-se da perda de quase 18 mil residentes num único ciclo censitário. Esse recuo demográfico não é apenas estatístico: tende a traduzir-se em menos população ativa, mais envelhecimento e maior dificuldade em sustentar atividade económica e serviços públicos.

O contraste entre os dois territórios vai além dos números. Viseu conseguiu construir uma base produtiva mais diversificada e mais ligada ao exterior, enquanto a Guarda permanece mais exposta à lógica de contração que afeta várias zonas do interior. Num caso, há capacidade de atrair investimento e reforçar a projeção externa; no outro, persiste uma trajetória de enfraquecimento demográfico e menor massa crítica económica.

Esta diferença encaixa no quadro mais vasto das assimetrias regionais em Portugal. A OCDE tem sublinhado a persistência do desnível entre litoral e interior e a necessidade de políticas públicas ajustadas às especificidades de cada território. No mesmo sentido, a CCDRC tem insistido na importância da coordenação territorial, da especialização produtiva e da escala institucional para o desempenho regional.

A comparação entre Viseu e Guarda mostra, por isso, duas realidades vizinhas, mas com destinos bem distintos. Viseu representa a possibilidade de transformar interioridade em competitividade. A Guarda continua a ser o exemplo de como a perda populacional prolongada pode fragilizar um território e limitar o seu futuro.

Hugo Andrade