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Diretor: Paulo Menano

OPINANDO: A morte


Já pensou na morte hoje?

O mundo, aos meus olhos, é uma trama de mil e uma coisas por descobrir, mil e uma razões e outras tantas dimensões misteriosas associadas à vida terrena.

É tão grandioso o mundo lá fora que me sinto exíguo. Insignificante. Sinto-me, aliás, um ponto sem ponto, um número sem número, uma matriz sem matriz, um padrão sem padrão — e garanto: não me aborrece. Pouco, ou mesmo nada, me importa.

Deste mundo, nada sei. Só sei que, quanto mais penso saber, menos sei ainda — e congratulo-me por isso. E não se trata de falsa modéstia. Asseguro Onde quero chegar com esta congeminação? Veremos onde vamos parar. À morte.

Tenho para mim que só pensa na morte quem sente necessidade de viver a vida com consciência da sua própria pequenez — como criaturas que são pontos sem ponto, tipos com padrões sem padrão, fulanos com matrizes sem matriz, e por aí fora.

Porém, sei também que há muitas outras criaturas que se acham o ponto no ponto, o padrão dos padrões e a matriz de toda a existência. E sabem que mais? Não consigo entender essa gente. Não consigo.

Porquê? Porque, neste imbróglio de pensamentos pessoal, não consigo conceber que alguém se julgue mais do que o outro, que mereça uma estátua, que se veja como uma panaceia em pessoa. Por norma, isto sucede a quem nunca pensou na própria pequenez.

Agora pergunto:

Numa vida com data de validade — isto é, com morte certa — deveríamos perder tempo sendo reféns de visões retorcidas? Imagens de gente refincada numa busca louca por notoriedade, como, por exemplo, o poder?

Ridículo. O que é o poder, afinal? Controlar um processo? Cacicar? Dominar um grupo? Uma cidade? Um país? O mundo?

Dá vontade de rir, de tão burlesco, aquilo em que alguns de nós se tornam. E o pensamento — também o dominam?

Não. Nunca.

Quantos já viveram e morreram? Quantos são lembrados? Quantas sociedades já se criaram ao longo de tantos e tantos anos? Pois.

E, mesmo assim, ainda há quem, com pensamento tão mínguo, acredite que será eterno — que ficará na história — como se fosse possível conquistar a eternidade através do pequeno poder exercido no seu grupinho, na sua cidadezinha ou até num país periférico.

Caramba.
Há tanto para lá dessas miudezas. A sério. Acreditem.

Perdem tempo a escolher a melhor fatiota para uma personagem criada com o intuito de disfarçar traumas e fragilidades.

Através da futilidade da imagem, desfilam entre fotografias que súbditos fiéis lhes tiram — ou, não havendo quem o faça, recorrem às selfies com frases feitas e saloias, como se de eloquência se tratasse.

Os feitos desta gente são, alegadamente, extraordinários — o pináculo da criação. Nada ombreia com tais obreiros. Nada mesmo. E ainda bem, diga-se.

Na verdade, nada contra. Cada um é como é. Contudo, importa reconhecer que, apesar da liberdade de viver e pensar, não devemos — nem podemos — pôr em causa os outros.

O que mais surpreende é que esta gente consegue chegar a posições que não se adequam a desacertos do intelecto. E aí reside o verdadeiro problema.

Ser governado, liderado ou influenciado por alguém assim é um atentado à vida coletiva. O próprio ridículo parece exultar de alegria.

A fome de poder nada mais é do que insegurança e fragilidade.

Poder é servir os outros — com consciência da morte. É servir sabendo que há um prazo que não deve ser desperdiçado com egos feridos, debilidades ou ostracismos individuais.

Estar em posições que nos permitem oferecer o melhor que temos e sabemos, em prol do outro, deve ser um exercício comum: sem cobranças, altruísta, humilde e grato.

Gratidão, acima de tudo. Porque ter a oportunidade, na vida que nos cabe viver, de ser exemplo para outros — no sentido laico de estar ao serviço de algo maior — é, aí sim, o verdadeiro pináculo da criação.

Deixemo-nos de dar importância a egos de selfie, a fatiotas que apenas disfarçam estigmas interiores, e dediquemo-nos, isso sim, a pensar na morte para podermos viver plenamente.

Termino dizendo apenas isto: algo que nunca dominaremos é o facto de sermos absolutamente… nada.

Apenas pó.

E do pó, meus caros, passado o incómodo momentâneo, ninguém mais quer saber.

Filipe André