A Beira Interior não morreu: foi reprogramada até 2126
Imagina que estamos no ano de 2026. A tecnologia é promissora, os algoritmos começam a sugerir-nos o que ler, o que comprar, até com quem nos relacionar. Ainda há escolas, professores, livros de papel. Ainda há dúvida, erro, debate. A liberdade sente-se — mesmo que já um pouco roída pela ansiedade da aprovação digital.
Agora dá um salto: 2050. A inteligência artificial entrou nas salas de aula. Primeiro como auxiliar, depois como substituta. O conhecimento já não se conquista — descarrega-se. As crianças aprendem por impulso neural direto. Os professores começam a ser vistos como obsoletos. E ninguém protesta: afinal, é mais eficiente.
Avança mais um pouco: 2080. A Beira Interior ainda tem aldeias, mas já não tem escolas. As universidades fecharam uma a uma. Os jovens partem ou ficam, mas já não precisam de pensar — os algoritmos pensam por eles. O território continua ali, mas algo essencial se perdeu: a capacidade de questionar o que lhes é dado.
Chegamos a 2126. A Beira Interior já não é um lugar — é um eco processado. Nas palavras inquietantes de Philip K. Dick, a realidade ali deixou de ser aquilo que permanece quando deixamos de acreditar nela. O território não desapareceu; foi reprogramado. O que outrora foi tecido de escolas, universidades e aldeias tornou-se numa arquitetura invisível de dados, onde a experiência humana foi substituída por simulação contínua.
Não houve colapso — houve transição. A tecnologia infiltrou-se devagar, como um algoritmo que aprende com cada interação. Primeiro nas grandes cidades, depois nos lugares mais afastados, até chegar a regiões como a Beira Interior, transformada num laboratório silencioso de uma nova condição pós-humana.
O primeiro sinal foi celebrado como triunfo: o fim da educação como processo. À semelhança das ligações neurais de Star Trek, caminho das estrelas, o conhecimento passou a ser descarregado diretamente no cérebro. Mas, ao contrário do ideal humanista da Federação — onde a tecnologia amplia a curiosidade — aqui ela substituiu-a. Acabaram-se os professores, o debate, o erro. E com isso, perdeu-se algo essencial: a capacidade de pensar para além do que nos é dado. Criaram-se pessoas actualizadas — mas paradas por dentro.
Entretanto, a promessa da imortalidade digital cumpriu-se — à maneira sombria de Dick. As consciências foram transferidas e armazenadas em servidores enterrados nas serras de Cebola, da Gardunha, da Estrela e nos tuneis das minas da Panasqueira, onde o frio natural sustenta uma eternidade artificial. As aldeias esvaziaram-se não por abandono físico, mas por desistência do que somos. O corpo tornou-se desnecessário. A Beira Interior transformou-se num deserto fértil em dados, mas vazio de vida.
A democracia dissolveu-se numa infocracia de algoritmos. Já não há debate — apenas processamento e políticos em modo figura madame Tussauds, Já não há escolha — apenas previsão. Como nas histórias da Fundação de Asimov, o futuro deixou de ser discutido e passou a ser calculado. A política morreu não por repressão, mas por falta de sentido.
A vigilância, por sua vez, tornou-se íntima. Como em tantas narrativas de Philip K. Dick, o controlo não vem de fora — nasce dentro de nós. As pessoas expõem-se voluntariamente, movidas por uma necessidade interna de validação. A liberdade confundiu-se com a previsibilidade. Nunca fomos tão transparentes — nem tão fáceis de governar. O comportamento humano é antecipado antes mesmo de se manifestar. A liberdade não foi negada — foi ultrapassada.
E, no entanto, nem tudo é assimilado.
Tal como os dissidentes silenciosos que encontramos nos episódios mais sombrios de Star Trek — aqueles que recusam a lógica totalizante dos Borg — também na Beira Interior persistem formas discretas de resistência. Não organizadas, não ideológicas, mas profundamente humanas. São os que recusam a transferência. Que insistem em viver num corpo. Que aceitam a finitude, o erro, a dor. Que leem livros físicos num mundo onde os algoritmos decidem o que é relevante. Que conversam sem registo, sem análise, sem objectivo.
São vistos como anomalias. Como falhas num sistema perfeito.
Mas talvez sejam, no fundo, os únicos ainda reais.
Porque, como nos ensinou Philip K. Dick, a linha entre o humano e o artificial nunca foi técnica — foi existencial. E como sugeriria Isaac Asimov, nenhum sistema, por mais sofisticado, substitui a imprevisibilidade ética da condição humana.
A Beira Interior de 2126 não é apenas uma distopia regional. É um espelho — ampliado — de uma escolha colectiva. Não sobre o que a tecnologia pode fazer. Mas sobre aquilo que estamos dispostos a deixar de ser.
E agora, no fim desta viagem, volta a 2026. Ainda podemos escolher. Ainda há tempo para errar, para pensar, para resistir. Porque a pergunta mais inquietante não é “como chegámos aqui?”, mas sim:
Por que aceitamos que pensar, errar e resistir sejam falhas, e não elementos que nos caracterizam como seres naturais e humanos?
Referências
Dick, P. K. (1968). Será que os androides sonham com ovelhas elétricas?, Editora: Relógio D Água, 2016
– Ubik. Editora: Relógio d’Água, 2016
– Relatório minoritário, Editora: Relógio d’Água, 2023
– O homem do castelo alto, Editora: Relógio d’Água, 2016
– VALIS. , Editora: Relógio D Água, 2016
Asimov, I., Fundação, Editora: Saída de Emergência. 2019
– Eu Robô, Relógio d’ Água, 2022
-Okuda, M., Okuda, D., & Mirek, D. (1997). The Star Trek Encyclopedia. Pocket Books.
– Barad, J., & Robertson, E. (2001). Ethics and Star Trek. HarperCollins.
-Roddenberry, G. (Criador). (1987–1994). Star Trek: The Next Generation [Série de televisão]. Paramount Television.
– Berman, R., & Piller, M. (Produtores). (1993–1999). Star Trek: Deep Space Nine [Série de televisão]. Paramount Television.
Nota do autor
Se este texto despertou a sua curiosidade (ou alguma inquietação), convido-o a explorar três outros artigo, maisBeiras, que escrevi sobre temas próximos. Eles ajudam a perceber melhor de onde vem esta viagem até 2126 — e por que razão começou muito antes.
Infocracia e o fim dos partidos políticos – uma reflexão sobre como os dados podem substituir o debate democrático.
O espírito do algoritmo na educação – será o fim da escola tradicional ou uma oportunidade para a reinventar?
A grande capitulação cerebral – como fomos, quase sem dar por isso, entregar a nossa liberdade aos algoritmos.
Boas leituras — e, acima de tudo, bom pensamento crítico.
Carlos M. B. Geraldes, Ph.D.
