OPINANDO: O desporto também pode salvar o Interior, mas a política continua a empurrá-lo para o abandono
Alexandre Mestre no seu ultimo artigo de opinião no Tribuna Expresso, tem razão quando diz que a legislação desportiva pode ser uma ferramenta útil. Pode. Mas só quando serve para libertar, incentivar e corrigir desigualdades — não quando serve para complicar, travar, burocratizar e tratar por igual realidades profundamente desiguais.
É aqui que o país continua a falhar de forma gritante: legisla para o desporto como se Portugal fosse homogéneo, como se o Interior tivesse as mesmas condições, a mesma população, os mesmos transportes, os mesmos patrocinadores e as mesmas oportunidades do litoral. Não tem. Nunca teve. E continuar a fingir o contrário já não é distração. É uma opção política.
No Interior, o desporto vale muito mais do que medalhas, classificações ou campeonatos. Vale comunidade. Vale saúde. Vale juventude. Vale pertença. Vale fixação de população. Vale combate ao isolamento e à desertificação. Um clube do Interior não é apenas um clube; é, muitas vezes, um dos últimos sinais de vida de uma terra que se recusa a morrer.
Mas depois chega a legislação feita à distância — fria, pesada e cega — e trata um pequeno clube do Interior quase como se fosse uma estrutura profissional de uma grande cidade. Impõem-se exigências iguais a realidades desiguais. Mais burocracia a quem já vive no limite. Mais custos a quem já mal respira. E o resultado está à vista: clubes exaustos, dirigentes esmagados, jovens com menos oportunidades e territórios cada vez mais vazios.
Se o Governo quer mesmo uma legislação desportiva virada para o futuro, então tem de começar por reconhecer uma verdade simples: o Interior não precisa de discursos. Precisa de discriminação positiva.
Precisa de mais apoio financeiro para os clubes de baixa densidade. Precisa de benefícios fiscais reforçados para quem investe no desporto fora dos grandes centros. Precisa de menos burocracia e de regimes legais adaptados à realidade local. Precisa de transporte apoiado para jovens atletas. Precisa de melhores infraestruturas. Precisa de uma articulação séria entre escolas, clubes e autarquias. E precisa, sobretudo, de dirigentes desportivos voluntários respeitados e protegidos, porque muitos deles sustentam o desporto local à custa da própria vida.
Mas há outra verdade que também tem de ser dita: o Interior não está apenas a ser esquecido por Lisboa. Está, demasiadas vezes, a ser mal defendido por quem o governa localmente.
Durante anos, muitos autarcas preferiram a prudência estéril, a dependência partidária, a política de cerimónia e o conforto da obediência. Faltou coragem para exigir mais, para enfrentar o centralismo, para romper com políticas inúteis e para fazer do desporto uma verdadeira ferramenta de desenvolvimento territorial.
Está na hora de os autarcas perceberem que não lhes basta gerir o calendário das festas e das inaugurações. Têm de liderar. Têm de pressionar. Têm de contrariar. Têm de deixar de ser apenas políticos e passar a ser construtores de futuro.
Porque, quando uma terra perde jovens, perde clubes, perde escola, perde serviços e perde ambição, não está apenas a perder população. Está a perder alma.
E o desporto, quando bem pensado e bem apoiado, pode ser uma das últimas grandes armas contra essa morte lenta.
Mas, para isso, é preciso coragem. Coragem para rever leis. Coragem para combater assimetrias. Coragem para dizer ao poder central que o Interior não é paisagem, nem adereço, nem sobra.
O Interior não precisa de pena. Precisa de respeito, visão e ação. E quem não percebe isto continua a legislar contra Portugal.
Fernando Mendes
