OPINANDO:A Rússia aposta na nossa divisão
Há um erro de perspetiva que continuamos a cometer ao olhar para a guerra na Ucrânia: tratá-la como um conflito distante, confinado a uma fronteira que não é a nossa. Não é. É a face mais visível de um projeto que visa a Europa que habitamos – a sua coesão, as suas instituições, a sua capacidade de decidir o próprio destino sem olhar por cima do ombro para Moscovo.
Vladimir Putin não esconde as suas intenções, apenas as embrulha em linguagem histórica. O Council on Foreign Relations identifica três impulsos no seu pensamento estratégico: segurança através da expansão territorial, o “reagrupamento das terras russas” perdidas desde a Idade Média, e a reunificação forçada dos “três ramos” do povo russo – russos, ucranianos e bielorrussos. É o mesmo argumento que usou, quase palavra por palavra, no ensaio de 2021 que precedeu a invasão. O Atlantic Council resume-o sem rodeios: está em curso na Ucrânia ocupada a tentativa de criar “uma Ucrânia sem ucranianos” – a erradicação sistemática de uma identidade nacional. A própria Comissão Europeia afirmou que o conflito “expôs as ambições imperiais e coloniais” do Kremlin. Chamemos as coisas pelos nomes: isto é imperialismo,
não segurança defensiva.
Este projeto não vive apenas de tanques. Vive de ideias com autores identificáveis. A investigadora Marlène Laruelle, do IFRI, descreve como o Kremlin construiu um edifício narrativo sofisticado: a Rússia como “civilização- Estado” distinta do Ocidente decadente, força de contenção do caos global, defensora dos valores tradicionais e líder de um “Sul Global” oprimido pela hegemonia ocidental. Figuras como Aleksandr Dugin, apelidado de “cérebro de Putin”, continuam a difundir esta visão eurasianista mesmo sancionadas pela UE. É este substrato que sustenta o “Mundo Russo” – a ideia de que russófonos e ortodoxos, onde quer que vivam, pertencem a uma comunidade que a Rússia tem o direito de proteger. A mesma lógica justificou a Crimeia em 2014 e o Donbass em 2022.
E depois há a propaganda, que não é efeito colateral da guerra, mas arma dela. A desinformação russa vive de uma estratégia construída ao longo de décadas, herdeira da tradição soviética e modernizada pela revolução digital, cujo objetivo é semear a dúvida e fragmentar consensos. Campanhas com nomes como Doppelgänger, Storm-1516 ou Portal Kombat já não se limitam a defender posições russas: procuram dividir sociedades e desacreditar governos eleitos.
O Departamento de Estado dos EUA descreveu este ecossistema como cinco pilares que amplificam mentiras através de meios estatais, sites-fantasma e redes coordenadas. Exemplo recente: o ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano denunciou uma campanha que reaproveitou fotografias de Ceuta para fabricar narrativas sobre migração, distribuídas em mais de 1.500 peças de conteúdo pela rede Pravda e pela RT. Portugal não está imune: estudos recentes colocam-nos entre os países mais expostos.
A boa notícia é que a Europa parece ter percebido a mensagem. Os números variam ligeiramente segundo a instituição – o Parlamento Europeu aponta para cerca de 343 mil milhões de euros gastos em defesa em 2024, o Conselho da UE indica cerca de 326 mil milhões – mas convergem no essencial: a despesa representou cerca de 1,9% do PIB da União, com crescimento superior a 30% desde 2021. O SIPRI confirma que a despesa militar europeia atingiu o valor mais alto já registado: 864 mil milhões de dólares em 2025, mais 14% face a 2024.
Em março de 2025, a Comissão lançou o plano ReArm Europe, que pretende mobilizar 800 mil milhões de euros, incluindo 150 mil milhões em empréstimos conjuntos. Na Cimeira de Haia, os aliados da NATO comprometeram-se a chegar aos 5% do PIB até 2035 – 3,5% em capacidades militares diretas e 1,5% em resiliência e ciberdefesa.
Compreendo as objeções: os orçamentos são apertados e a tentação de tratar a defesa como um luxo geopolítico é real. Mas a alternativa – uma Europa desarmada perante uma potência que não esconde as suas ambições territoriais – não é prudência, é ingenuidade cara. O próprio Parlamento Europeu reconhece que a guerra russa, associada às mudanças na política externa dos EUA, “intensificou a urgência” de reforçar a segurança europeia. O investimento em defesa não é sobre preparar a próxima guerra. É sobre garantir que ela nunca chega às nossas portas, porque a dissuasão credível continua a ser o argumento que Moscovo mais respeita.
Hugo Andrade
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Fontes de informação consultadas:
Atlantic Council: http://www.atlanticcouncil.org/blogs/ukrainealert/a-ukraine-without-
ukrainians-putin-is-erasing-europes-largest-nation
Comissão Europeia: https://portugal.representation.ec.europa.eu/atualidade-e-
eventos/atualidade/doze-mitos-sobre-guerra-da-russia-na-ucrania-2023-02-24_pt
Conselho da UE: https://www.consilium.europa.eu/pt/policies/defence-numbers/
Council on Foreign Relations: https://www.cfr.org/articles/limits-putins-ambitions
Departamento de Estado dos EUA: https://2021-2025.state.gov/russias-pillars-of-disinformation-and-
propaganda-report
IFRI: https://www.ifri.org/sites/default/files/migrated_files/documents/atoms/file
s/ifri_laruelle_russia_ideology_2024.pdf
Parlamento Europeu: https://www.europarl.europa.eu/topics/pt/article/20190612STO54310/def
esa-como-a-ue-esta-a-reforcar-a-sua-seguranca
Sábado: https://www.europarl.europa.eu/topics/pt/article/20190612STO54310/def
esa-como-a-ue-esta-a-reforcar-a-sua-seguranca
SIPRI: https://www.sipri.org/sites/default/files/2026-04/2604_milex_2025.pdf
UNN: https://unn.ua/en/news/sybiha-calls-for-banning-russian-propaganda-
resources-in-europe-after-disinformation-campaign
